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Competir é Fácil. A Educação pode ir Além

A competição surge, para a maioria das crianças, por volta dos cinco anos de idade. Em geral, elas não lidam bem com a derrota. Surpreende que este mesmo nível de socialização – baseado na disputa e sem amadurecimento para perder com elegância – seja encontrado em muitos adultos. Surpreende, mas não é inexplicável. A criança, entre o nascimento e o sexto aniversário, está quase completamente envolvida com a tarefa de construir a si mesma. Ocupa-se o tempo todo de sua identidade, língua, cultura e a conquista de graus cada vez mais elevados de independência em relação ao adulto.

Se a criança se desenvolveu bem, mais ou menos aos cinco anos, sua individualidade estará bastante construída, e a partir daí a criança se volta cada vez mais para fora, em busca dos outros, e de formas rudimentares de socialização. É possível ver isso ao assistir uma tarde de brincadeiras entre crianças de dois anos, em que todas estão bem, mas cada uma se diverte com seus próprios atos, seus objetos e objetivos. Constrastando, uma tarde com várias crianças de cinco ou seis anos vai incluir interação o tempo todo, jogos coletivos e muita conversa.

Na competição, a criança precisa fazer muito pouco trabalho com a individualidade que acabou de construir. Na competição, trata-se de um eu que se prova contra um outro. Um ganha e o outro perde. É uma dinâmica binária em que, de qualquer maneira, a individualidade se enrijece, separando-se cada vez mais do outro.

Existem outras formas de socialização, muito mais desafiadoras. Considere, por exemplo, a cooperação. Nela, a individualidade não precisa se desfazer, mas precisa combinar-se com outras individualidades, para alcançar sucesso. Pode ser preciso fazer algo de que não se gosta, ou ceder pelo bem do grupo. A individualidade amadurece em uma dinâmica que, em lugar de binária, é altamente complexa.

Um exemplo simples ocorre quando duas crianças carregam juntas um objeto que é pesado demais para uma só. O diálogo sobre os caminhos, os acertos e os erros nos mostra tudo: elas cedem, fazem o que não querem, amadurecem e alcançam sucesso.

Podemos pensar também na compaixão. Nela, permitimos uma rachadura em nossas individualidades para que a dor do outro nos provoque à ação. Na compaixão, a urgência do outro e os meus atos caminham juntos, e já não há uma tentativa defender a própria individualidade separando-se do outro, mas, pelo contrário, há uma fortalecimento mútuo conforme o indivíduo compassivo se abre para ajudar, e aquele que está sendo ajudado se une ao primeiro, abrindo-se para receber o auxílio ou o apoio necessários.

Certa vez, me recordo, uma aluna de cinco anos parou de fazer um livro de desenhos de cavalos para ajudar uma colega menor que havia batido a cabeça. Foi um gesto pequeno, mas que partiu completamente dela, e só depois retornou ao livreto que construiu até o final, ao longo de duas horas.

Em um mundo no qual ninguém vive realmente sozinho, educar para a competição significa preparar sujeitos para serem socialmente disfuncionais, quando não inúteis. Apenas a educação que constantemente transcende a competição pode guiar os seres humanos para viverem em um futuro incerto e fazer o que humanos fazem de melhor: cooperar para construir uma realidade nova para todos.

O Caminho do Grande Trabalho

Exercícios pequenos que possam ser resolvidos por uma criança só, assim como jogos individuais de videogame ou computador, preparam a criança para a competição mesquinha. Aliás, o mesmo vale para os algoritmos personalizados das redes sociais, que nos isolam e nos opõem aos outros. Atividades grandes demais para uma pessoa só parecem ser o caminho para criar personalidades mais completas e complexas, capazes de colaboração e compaixão. Se algo que merece ser feito só pode ser feito por muitas mãos, o coletivo vale mais do que o indivíduo isolado – este é o caminho para começar a reparar no outro, e um dia reparar o suficiente para, compassivamente, sentir com ele e até agir por ele.