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Como o bichinho da leitura resistiu ao tempo da leitura por obrigação

Ler para fazer provas e tirar notas boas. Será que isso é estimulante para alguém? Até hoje, me pergunto. Quando mudei de escola fiquei com medo da lista de livros paradidáticos. Eram muitos! Para quem lia por prazer e para passar o tempo, sem obrigação, parecia muita coisa ter que ler oito ou dez livros por ano. Como eu ia responder a essas questões de prova? Não costumava decorar por muito tempo o nome dos personagens depois do livro concluído. Ainda tenho dificuldade.

O tempo do paradidático chegou na minha história tarde, aos 13 anos, quando fui estudar em uma escola grande. No último ano do Ensino Fundamental, não lembro bem a lista toda, mas sei que tinha O Guarani, do José de Alencar; A cabana do Pai Tomás, o Cão dos Baskerville, do Arthur Conan Doyle e João Miguel, de Rachel de Queiroz. De cara, não me identificava tanto com essas leituras. Não eram livros tão fáceis de achar e às vezes eu tinha que pedir emprestado aos colegas.

Desses quatro, ficou marcado na minha mente o do José de Alencar, porque eu já tinha lido e gostado de A Viuvinha e Cinco Minutos. Por esse tempo, eu tinha um namoradinho de escola que parecia com o jeito do Peri. E eu ficava imaginando que eu era a Ceci dele.

Eu também lembro um pouco do terrível drama da cabana do Pai Tomás porque era uma história sobre a escravidão nos Estados Unidos. Esse era um tema que sempre me emocionava. Minha mãe assistiu comigo A Escrava Isaura e eu ficava comparando as duas histórias. Acho que cheguei a chorar na época.

Já o do Conan Doyle, passou batido nessa época, não me empolgou tanto, enquanto o João Miguel me deu muito ranço. Que livro insuportável de chato! Até pensei: se essa mulher escrever desse jeito em todos os livros dela, nunca mais quero ler nada dela na vida! Mal sabia eu que iria me apaixonar por outras obras dela, mais adiante, também para fazer prova.

Mesmo com medo e achando que não ia conseguir lembrar de tantos detalhes, as provas sempre eram feitas com tranquilidade e com bons resultados.

Nesse ano da oitava série, eu estudava na Avenida Imperador e, quando saía mais cedo, gostava de atravessar a rua e ir em uma pequena livraria perto da igreja de São Benedito, antes de ir pegar o ônibus na Avenida Duque de Caxias para voltar para casa. Foi assim que descobri uns livros super baratos que eu podia comprar com o dinheiro do lanche. O papel era de jornal, mas tinha os poemas direitinho. Comprei um exemplar do Soneto de Fidelidade e outros poemas, do Vinícius de Moraes assim. Lá, também conheci o Paulo Leminski. Esse era caro, não consegui comprar.

Outra diversão literária era ir até a praça do Ferreira para ver as novidades da Livraria Paulus. Com um ar condicionado ótimo e algumas promoções, especialmente de marcadores, eu costumava dar uma passada por lá quando o pai me pedia para ir ao banco. Até hoje me admiro como meu pai confiava em dar um cheque para uma menina de 14 anos ir trocar no caixa de um banco sozinha.

Apesar de eu achar esses livros da escola meio chatos, foi bom para ampliar o repertório do que eu lia por vontade, que, geralmente eram obras de poesia e religiosos.

No Ensino Médio, conheci mais autores clássicos. Helena foi o primeiro contato com o Machado de Assis. Tinha abuso dessa protagonista. Achava super insossa. Foi nesse tempo que comecei a me viciar nos livros do Paulo Coelho, de novo por influência daquele primeiro namorado que gostava de ler.

No nosso grupo de amigos, fazíamos um revezamento dos livros desse autor. Alguém pedia emprestado na biblioteca da escola ou então comprava naquela coleção que vinha com o jornal e fazia o rodízio com todos. Assim, li Veronika decide morrer, O Diário de um Mago e tantos outros. Esses sim eram livros empolgantes e legais, eu achava. Para chocar, a gente ainda levava eles para a igreja junto com os livros da Crisma! Adolescente é cheio de ousadia, algumas bem bobas.

Depois de Helena, peguei emprestado com a mãe de um amigo o Dom Casmurro e aí sim gostei do Machado de Assis. Aos 15 anos, ainda ganhei o Memórias Póstumas de Brás Cubas do meu amigo trocador de ônibus, o Luís Antônio.

Da Rachel de Queiroz, depois da péssima experiência com o João Miguel, dei uma nova chance e peguei O Quinze na biblioteca da escola, que não deixava levar para casa. Passei vários recreios para terminar. Uma experiência ótima. Fui obrigada a ler Dora, Doralina e esse gostei ainda mais. Até hoje, um dos que mais me marcou.

Nesses recreios, muitas vezes fugindo de conversas sobre bens que eu não tinha e passeios que eu não poderia fazer, conheci Francisco Carvalho, toda a coleção cor de rosa do Vinícius de Moraes e um dos meus grandes amores, o Érico Veríssimo, com Clarissa, Música ao Longe e Olhar os Lírios do Campo.

Com tantas leituras, as paixões e um amor especial por coisas macabras e poetas malditos, comecei a escrever meus próprios versos e partilhar com esse mesmo grupo de amigos. Nosso sonho era lançar uma coletânea juntos, o que nunca se concretizou, embora todos tenham continuado escrevendo por muito tempo. A vida nos afastou um pouco, mas a literatura e as artes continuaram bem vivas na vida de todos nós. Alem de mim, que me tornei escritora, um dos meus amigos é professor de português e cordelista, o outro é ator e ilustrador e outro continua escrevendo seus poemas.

A parte mais desafiadora dos paradidáticos seria ao fim do Ensino Médio com a famosa lista de livros para o vestibular da Universidade Federal do Ceará, que eu conto na próxima crônica. Aguardem.