Fui a primeira criança da minha pequena família materna, em São Paulo. Minha mãe tinha várias enciclopédias. Nos anos 1970, era comum as pessoas comprarem fascículos nas bancas e, no fim, transformarem em livros de capa dura. E como ela achava que a estante ficava mais bonita com aquele catatau de livros, levou todas pra sua casa quando casou.
Tinha o Novo Conhecer, com assuntos gerais. Medicina e Saúde, com todas as especialidades médicas e casos clínicos em gravuras. Uma coleção de dicionários de biografias resumidas. Tapeçaria, crochê, tricô, novelas, reprodução humana… Era um verdadeiro Google.
No Ensino Médio, minha mãe ainda foi sócia do Círculo do Livro, mas acho que foi só um ano. Literatura, acho que tinha uns dez livros, ou menos. Livro infantil? Nenhum.
Minha mãe, diz ela, que às vezes ficava um tempo desocupada e resolveu me ensinar as letras e números. Dessa forma, eu aprendi a ler e comecei a desvendar o meu Google doméstico.
Meu pai, homem prático que só estudou em escola até a quarta série, também tinha os livros dele. Em São Paulo, gostou da ideia dos fascículos que viravam livros. Um deles era o Hobby, com projetos de móveis, no estilo faça você mesmo e o outro, contava casos paranormais, O Poder da Mente. Além desses, guardava os livros do Instituto Universal Brasileiro, onde fez supletivo do primeiro e segundo graus, desenho artístico e publicitário, inglês e eletrônica. O livro das Profecias de Nostradamus e dois grossos dicionários, um de inglês-português e um de português normal completavam a coleção dele.
Outra influência foi meu único tio por parte de mãe, um ávido colecionador. Na época, mesmo tendo assinatura de várias revistas, como a Super Interessante, também colecionava gibis. Então, quando aprendi a ler, me deu alguns dele para que eu tomasse gosto pela leitura. O que lembro mais era o do Surfista Prateado.
E chegou o dia mais feliz. Quando me levou na banca para escolher minha própria revistinha. Optei pelo primeiro número do gibi da Xuxa e um da Moranguinho.
Comigo, o hábito da leitura se deu de forma natural, sem forçar, com o que tinha à mão. Era pra passar o tempo, por curiosidade, sem compromisso. Talvez, essa forma seja a que mais funciona. Porque, depois disso, nunca consegui parar de ler por muito tempo. Ainda é diversão. Mas, falo mais disso semana que vem…
