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Como Construir a Paz (com as Crianças)

No final da semana passada, uma escola foi bombardeada na Ucrânia. Duas semanas atrás, uma operação policial desastrosa acabou com cento e vinte mortos. Nos últimos dois anos, vimos um genocídio desenrolar sem pausa na terra onde nasceu uma criança especialmente importante para todo o ocidente.

As soluções propostas partem de adultos, para adultos e envolvem medidas implementadas quase exclusivamente por adultos. Elas podem funcionar para suspender a guerra temporariamente, mas não funcionam para construir a paz.

Maria Montessori, médica e educadora que viveu as duas guerras mundiais, a ascensão e a queda dos regimes totalitários da Europa e viajou por quase todos os continentes da terra, destacou-se como pacifista. Ela dizia: “A construção da paz duradoura é tarefa da educação. Tudo que a política pode fazer é evitar a guerra”.

Podia afirmar isso porque havia entendido outra realidade fundamental: a guerra não se inicia na disputa entre Estados ou poderes. O conflito começa entre os adultos e as crianças: “Os adultos ainda não entenderam as crianças e os adolescentes, como consequência, permanecem em contínuo conflito com eles,” ela dizia.

Um adulto não compreende suas crianças, por exemplo, quando grita com uma criança de dois anos que se movimenta muito, tentando fazer ficar parada uma criança que não tem escolha, se não se mexer o tempo todo.

O adulto ira-se contra o bebê que chora. Sente raiva do filho de quatro anos que volta sujo da escola, porque estava brincando, quando a brincadeira é a única forma que a criança tem de se desenvolver e de conhecer o mundo.

O adulto se sente particularmente ofendido pelo adolescente que se torna questionador, sem compreender que o adolescente está se tornando um indivíduo independente, e que precisa se diferenciar de seus pais nesse processo.

O cérebro das crianças e dos adolescentes está em desenvolvimento, e as relações com os adultos se tornam modelos para as relações que eles estabelecerão – não apenas com seus filhos e alunos -, mas com aqueles que são mais fracos.

Quando a criança compreende que, diante de um ser humano mais fraco, podemos exercer gestos de humilhação, opressão e exploração, porque os adultos fazem tudo isso com ela, esse aprendizado não se repete apenas com outras crianças no futuro. Se ela se tornar a dona de um império industrial, vai explorar os funcionários no chão de fábrica e ofender os de colarinho branco.

Caso se torne uma dona de casa privilegiada, a empregada doméstica sofrerá por sua vez o que ela sofreu quando era bem pequena. Finalmente, caso se torne chefe de Estado, fará guerra para dominar pessoas e regiões. Maria Montessori nos disse: “Os adultos devem defender as crianças. Nós, adultos, devemos ver a humanidade verdadeira nas crianças, a humanidade que tomará nosso lugar um dia, se buscamos progresso social.”

O que um parque pode fazer pelas crianças

Se nossa missão de adultos é permitir que as crianças existam de forma integral, isso também quer dizer permitir que elas pensem, queiram e ajam por conta própria.

Nem sempre isso é completamente possível. Mas existe um lugar onde isso pode acontecer: o parque. No próximo final de semana, experimente levar suas crianças ao parque. Quanto mais verde melhor.

Lá, você pode se sentar e descansar, enquanto as suas crianças encontram outras crianças para brincar. Você vai ver algo muito bonito: crianças são pessoas, capazes, inteligentes, fortes e com emoções próprias.

Em vez de ficar ouvindo música, ou no celular, experimente assistir suas crianças sem fazer nada, sem dizer nada. Perceba tudo que há de bom nelas, e sinta o que acontece dentro de você enquanto você percebe o que existe de melhor nos seus filhos. Assim, esperando e observando, você lança sementes de paz duradoura.