O frio na barriga continuava, mas o sono andava mais solto. A paz consigo ajudava a relaxar mais rápido. Fazer as mesmas coisas não ia trazer resultados diferentes. Era preciso mudar a estratégia. Controle de verdade da vida, ninguém tem. No entanto, quando decidimos algo, parece que os caminhos se abrem. Tenho essa sensação.
Acordei no limite do horário, como tinha feito nos últimos dias. Aproveitava o quentinho da cama o máximo possível. Um banho gelado, perfume, café, o pão de sempre no trailer do Léo. Atravessar as quatro pistas da rodovia. O medo era acontecer algum imprevisto. Nos últimos dias, orava a cada rua que atravessava, em cada transporte, principalmente as motos. Deus me livre de um acidente agora.
Peguei o último ônibus de ida para aquele caminho percorrido nos dois anos mais recentes para ganhar parte do sustento. Sempre prestava mais atenção quando estava perto de descer no Centro, ao entrar na rua Padre Mororó. Uma última olhada na casa do seu Geroldo. Dessa vez, ele não estava na janela. Avisto a Padaria Globo, dou sinal e o ônibus para um pouco além da parada costumeira. Mesmo em frente à minha casinha preferida – o sobrado dos anos 1930 com muro coberto de buganvílias.
Fotografo com o olhar aquela casa que já gravei com o celular em outros momentos. Atravesso a rua, peço o café no restaurante da dona Sandra, passo o batom vermelho, me olho no espelho… Peço logo o Uber para o trabalho.
Olho os Benjamins que se beijam sei lá desde quando. Não vou mais olhar para eles, nem ouvir a algazarra das maritacas… O trajeto será outro.
Uma lágrima quer cair, eu deixo. Será se é isso mesmo? Não será um desatino, uma loucura? O frio na barriga de novo. A cabeça fala: é preciso, chegou a hora. Lembro por um instante da despedida dos amigos de trabalho no dia anterior. O tanto de carinho, de abraço, de choro. Me emociono agora, ao escrever. O caminho que encerrei teve um fim bonito.
Sigo para a Praia de Iracema no carro. Na descida da rua Padre Mororó, meu amor Mara Hope olha para mim. Nem vou te ver mais todo dia, meu navio querido. A Bece, o Dragão do Mar, a Caixa Cultural, a Ponte dos Ingleses… Vão voltar a ser vistos só nos dias de passeios. Dou um até logo em silêncio.
No trabalho, faço meu texto de despedida, abraço cada um, conforme chega ao fim do expediente. Retiro meus adesivos do computador, o poema do Fernando Pessoa – “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena” – a garrafinha com as flores do Levi, meu amigo que foi trabalhar em outro lugar no início do ano. O cacto da Helga, nossa gestora, presente do fim de ano. Recolho tudo na bolsa e sigo para o meu novo caminho. Em paz e carregada de amor. A coragem vem depois de dar o primeiro passo. Eu já conheço o trajeto.
