Um jogo que é a cara do jogador. Tem múltiplos cenários e pode ser personalizado para o gosto e a dificuldade do gamer, com desafios e personagens variados. Pode ser desenhado pelos jogadores, misturar competição e colaboração, e pode ser melhorado pelos usuários. É um bom ambiente para fazer amigos, encontrar pessoas com interesses comuns e começar relações que podem ir além do espaço virtual.
Eu acabei de descrever o Roblox, a maior plataforma de jogos virtuais do planeta, pelo menos entre crianças e adolescentes. Gratuita, acessível e leve, o Roblox poderia ser a utopia do jogo virtual.
Infelizmente, o Roblox também pode ser descrito como “Uma visão de um inferno pedófilo para crianças” – foi exatamente assim que a empresa de pesquisa investigativa Hindenburg Research descreveu a plataforma em um relatório recente.
Envolvido em múltiplos escândalos de abuso sexual contra menores, o Roblox fez tentativas insuficientes de se adaptar ao escrutínio público. A mais recente, em 03 de setembro, é fortalecer a verificação de idade com autorização parental e coleta de imagem do rosto das crianças.
Pode soar irônico confiar a imagem de nossos filhos a uma empresa que permitiu abusos recorrentes, mas para muitas famílias, parece não haver outra opção.
Nos Estados Unidos, mais da metade das crianças e adolescentes jogam, e no Brasil os números não parecem ser muito diferentes. O efeito plataforma, aquela sensação de não poder deixar um espaço virtual porque todos os nossos contatos estão lá, força a retenção dos jovens por muito tempo.
Curiosamente, o Roblox não dá lucro. Desde 2021, já acumulou mais de 1 bilhão de dólares em prejuízos, mas o valor de suas ações continua crescendo. O motivo é simples: Há quase tantas contas no Roblox quanto pessoas no planeta Terra e o app foi baixado quase 220 milhões de vezes só em 2024.
É um sucesso que vive no vermelho. Agora, a empresa tem três opções: passar a vender assinaturas, vender anúncios dentro do produto, ou adquirir ainda mais usuários, com cada vez menos filtros.
Diante desse cenário, precisamos escolher se nossos filhos poderão acessar a plataforma. Podemos dizer não, mas com quase todos os amigos deles lá dentro, vai ser difícil.
Independente da sua escolha, considere que privacidade online é coisa de adulto. A internet é um mundo, e se você não está preparado para deixar seu filho sozinho no mundo, ele também não está pronto para ficar sozinho na internet.
O mais importante ficou para o final: Se você realmente quer que seu filho fique seguro, jogue Roblox. Não precisa ser muito, nem sempre. Mas se você fizer uma conta, e se tornar um contato de seu filho no jogo, pode jogar com ele. Considerando que ele vive uma parte da vida dentro do jogo, pode ser uma ideia excelente.
Você não precisa de muita habilidade. O importante não é ganhar, nem competir. É acompanhar, dar risada, e entender do que ele está falando quando fala de skins, Robux e campanhas. Talvez mais importante ainda seja fazer o seu filho sentir que, nesse mundo novo, ele pode contar com você.
Do Jogo para o Mundo Real
Em um jogo virtual, as crianças procuram o que queriam encontrar no mundo físico: protagonismo, aventura e comunidade.
A melhor maneira de tirar as crianças da tela não é proibir a tela, mas oferecer mais vida real do lado de cá.
Ninguém quer desligar a tela para não fazer nada. Mas pode dar certo desligar para pedalar no parque, chamar os amigos para criar sabores de pizza em cima de uma congelada do mercado e assar no forno de casa, plantar mudas de tempero na varanda ou brincar com o cachorro.
Quando for fazer a transição da tela para a vida, experimente fazer convites irresistíveis, mais do que cortes abruptos. E quando as crianças falarem dos jogos, faça perguntas, assista aos gameplays do YouTube com eles, e tenha opiniões.
Em geral, as crianças querem dividir o mundo conosco. Os dois mundos: o virtual e o físico. Se você abraçar isso com elas, pode ser divertido.
