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Carta para Mara Hope

*Esse texto integra o livro de estreia da autora, Cidades Invisíveis. A ilustração é do premiado artista visual cearense Vando Figueiredo.

 

Começo esta carta te dizendo que dizendo que temos muito em comum. No ano em que eu nasci, você foi incendiado. Minha vida começava e a sua utilidade como petroleiro chegava ao fim. Eu, em São Paulo, naquela maternidade da Santa Cruz. Você, em Port Neches, no Texas. 

Assim como você, fui levado para Fortaleza. Você, de passagem. Eu, para ficar. Meu pai cearense viu possibilidades de se estabelecer com mais conforto aqui. Dois meses depois de ele voltar para o Ceará, eu chegava no aeroporto Pinto Martins com minha mãe e meu irmão.

Você chegou quatro anos antes de mim, em 1985. Um rebocador te trouxe até este porto. Uma tempestade soltou suas amarras, ou alguém soltou de propósito. Levado por ventos fortes, encalhou em um banco de areia quase em frente à Ponte dos Ingleses, de onde olha Fortaleza há 35 anos.

Assim como você, depois que aqui cheguei, também finquei minhas amarras. Você, há tantos anos encalhado, teve seu convés transformado em um berçário de peixes e corais. Foi point de mergulho durante muitos anos. Eu fiz minha vida por aqui e floresci. De mim, surgiram duas belas crianças, graças ao bom Deus que toca e faz surgir vida de onde Ele quer. 

Não lembro bem quando te conheci. Terá sido em 1996, quando fui até o Panorama Artesanal avistar o Pôr-do-Sol  e ver as luzes do Marina Park se acenderem? Ou terá sido quando conheci a Ponte Metálica? Será que foi quando fui no Passeio Público? Não consigo lembrar.

Sei que depois que passei a reparar em ti, buscava tua sombra em cada avistar do mar. Ia ao Passeio Público só pra te ver  e mostrar pra quem estivesse comigo. Na volta do trabalho,  fazia questão de pegar o Circular para te ver ali do Aterro do Praia de Iracema, ao cair da tarde, enquanto o sol se despedia, até você sumir detrás dos prédios e eu continuar meu percurso até a rua padre Ibiapina, onde ia pegar meu outro ônibus pra casa.

E eis que como se tu assoprasse tua voz de barco naufragado para a redação, surge a oportunidade de, em um veleiro, eu te conhecer bem de pertinho. O sol era de meio-dia, mas eu sabia que jamais esqueceria aquele encontro. Em vez da tua sombra distante, vi como você sofria a ação do tempo, com muita ferrugem, um grande pedaço arrancado e seu mastro que, quebrado, estava prestes a cair.

Ainda assim, eras belo. E guardei tua imagem comigo, sonhando com o momento do reencontro.

Oito anos depois, voltei a te ver. Dessa vez, acompanhada do marido e dos filhos. Em vez do Sol impiedoso que me rendeu uma enxaqueca, te vi cercado de tons amarelos e alaranjados e do mar verde com sua faixa dourada pelo entardecer. 

Tanto tempo depois, estás ainda mais corroído. Teu mastro caiu. Não é mais recomendado o mergulho pulando do teu convés. Igual a mim, de novo. Faltando três anos para os quarenta, sinto menos força. Os anos de descuido me renderam pés inchados, quilos extras. Preciso mudar meus hábitos. Estou enferrujando e soltando pedaços, igual a ti.

Espero te encontrar de novo logo, Mara Hope. Quem de nós dois sumirá de Fortaleza primeiro?