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Carta para a minha filha de 12 anos

*Essa crônica, em formato de carta, integra o livro de estreia da cronista – Cidades Invisíveis, que está na terceira tiragem e à venda com a autora, por direct (@eukellygarcia) e whatsapp (85 987261963) . Sua filha, Luiza Garcia, é a autora dessa ilustração e faz 16 anos em 21 de fevereiro.

 

Querida filha,

Hoje é o segundo dia dos seus doze anos de vida. Queria lhe fazer uma homenagem, mesmo que você fique com vergonha. Isso porque, aos 12 anos, já se é adolescente e nesse período da vida, a gente acha que tudo é passar vergonha. E nós, os pais, somos os melhores nesse ramo de fazer os filhos passarem vergonha.

Andei pensando que nesses últimos doze anos, o que mais fiz foi  tentar mostrar as cidades invisíveis que me habitavam para você. Essas que guardei aqui dentro. Foi contigo, desde os seus dois anos, que eu atravessava a cidade pra ir trabalhar e te deixar na creche Giramundo, que se mudou e deixou em seu lugar um estacionamento, tão parecido com os outros muitos prédios e casas históricas que deixaram de existir para ter o mesmo destino.

Como o trajeto era longo, duas horas na ida e duas na volta, eu ficava arranjando distrações para que você não ficasse entediada e imaginava um mundo de coisas nas paisagens que víamos pela janela do ônibus.

O Paço Municipal, onde está uma parte do Rio Pajeú, ali pertinho do Mercado Central, se transformava na floresta em que o Lobo Mau e a Chapeuzinho se encontravam. Ali, tenho certeza que é praticamente invisível para a maioria das pessoas, mas o Circular 1 passava do lado. Os viadutos se transformavam em montanhas russas. Eram assim as nossas viagens diárias entre o Araturi, na Caucaia e o Dionísio Torres, em Fortaleza.

Quando você fez três anos, a gente viajou juntas para São Paulo. E lá eu te mostrei também os lugares das minhas lembranças. Entretanto, diferente daqui, o Ibirapuera e o Zoológico pareciam muito com os de 20 anos atrás. Notei poucas diferenças. Por lá, te levei pra ver os muros da casa em que eu nasci, na Praça da Árvore, porque ela estava à venda e já tinha caído uma parte. Conhecemos alguns lugares novos também, como o Aquário, o Museu Catavento e o da Língua Portuguesa.

Por aqui, fiz questão de te mostrar o Farol do Mucuripe em fotografia, aquele que falei na crônica da semana passada, pensando que algum dia ainda poderia te levar lá. Você até fez um desenho. Mas, de lá para cá, a situação piorou mais ainda. Não sei se poderemos ir juntas lá. Pode ser que caia antes ou que você não sinta nenhuma vontade de ir.

Assim como muita coisa mudou nesses doze anos que você tem de vida, tem coisas que morreram na sua memória. Desses passeios muitos que fizemos antes dos seus cinco anos, você quase não se recorda de nada. Hoje, seus interesses são outros. Sua personalidade é tão diferente da minha. Até tentei te levar outro dia para os passeios que fiz com você pequena, mas foi diferente, você não viu mais tanta graça. Tudo mudou. As pessoas, os seus gostos, a cidade. Eu mudei também.

Hoje, nem tenho mais tanta vergonha de escrever essas coisas e mostrar pro mundo. E a vergonha que eu sentia quando minha mãe queria me beijar em público também passou.

Quem sabe em um futuro próximo a gente tenha os gostos urbanos parecidos de novo? Por enquanto, os filmes, as séries, os lápis e as canetas continuam nos unindo e nos fazendo sorrir como agora.

Parabéns!