Menu

Cabelos: estética, importâncias e mercado

Na semana passada, entre uma conversa e outra com um amigo médico e cirurgião, numa eterna e fraterna confraternização de segunda-feira, ele contou-me que havia visto um jornalista amigo comum, mas que inicialmente não o havia reconhecido, pois tinha feito um implante de cabelo. Pois é, “o cabelo muda as pessoas”. Na hora, o amigo calvo retrucou: “Para que cabelo? Cabelo lá muda ninguém, as pessoas que mudam!”. Tenho ouvido dos profissionais da psicologia que os cabelos melhoram, inclusive a autoestima de algumas pessoas. Depois daquela conversa na confraria, fiquei refletindo e rememorando os textos históricos sobre o assunto. O historiador Jules Michelet, em sua obra “La Sorcière”, “A Feiticeira” em português, a partir do imaginário construído pelo olhar misógino, clerical e inquisitorial europeu da Idade Média e da Idade Moderna, descreveu a aparência de uma bruxa como figura física degradada: “cabelos desgrenhados, queixo protuberante, mãos ossudas e crispadas e corpo envelhecido”, ou seja, os cabelos integram uma das características da degradação. Dias depois, presenciei no estacionamento de um shopping uma briga de duas mulheres por um motivo bobo: uma vaga no estacionamento. Chamou-me atenção que ambas se xingavam com palavrões e puxavam com uma raiva incontrolável os cabelos uma da outra. Ainda bem que a “turma do deixa-disso” tratou de separá-las. Na faculdade, lembro que certa vez, em uma turma de Psicologia cuja grande maioria era de mulheres, falando sobre o comportamento feminino, uma garota pediu a palavra e, com a concordância das amigas, disse: “O cabelo para a mulher é o que ela tem de mais importante, por isso, em uma briga, puxam o cabelo da outra. O cabelo é importante para o nosso bem-estar, nos dá autoestima, inclusive na paquera – quando estamos interessadas em um homem, olhamos e mexemos os cabelos”. E por falar em cabelo, os documentos históricos revelam que o mestre Sócrates era calvo, tinha o nariz achatado, os olhos grandes e arregalados, ou seja, completamente destoante do padrão grego de beleza. Por aqui, os homens carecas como símbolo de atração e estética, parece que se iniciou com a marchinha de Carnaval de Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti, em 1942:”Nós, os Carecas” que ficou famosa pela letra: “Nós, nós os carecas/Com as mulheres, somos os maiorais / E na hora do aperto / É dos carecas que elas gostam mais”. Esse apreço pelos homens calvos e/ou carecas permaneceu com um certo glamour até os anos 80, quando alguns atores viraram galãs, como Raul Cortez na televisão brasileira e Yul Brynner, Lee van Cleef, Gene Hackman, dentre outros no cinema norte-americano. No entanto, a concepção de estética muda com o tempo. Hoje, os carecas parecem não serem mais tão atraentes aos olhos femininos. Não há dados consolidados que especifiquem o valor total exato investido no Brasil em barbearias e operações de implantes capilares. O mercado de barbearias no Brasil é parte do crescente setor de beleza masculina que projetou alcançar US 78,6 bilhões só em 2024. Segundo os dados, “o mercado global de transplante capilar atingiu US$ 5 bilhões em 2022 e tem uma projeção de crescimento de 21% até 2032. O custo médio de um implante capilar no Brasil varia geralmente entre R$ 15.000 e 30.000”, podendo superar esse valor dependendo da técnica e do número de folículos, e os procedimentos só crescem. Então, se você tiver esse desejo estético e dinheiro disponível, ajeite o cabelo, mas não esqueça de enriquecer o intelecto e preparar o físico para começar com o pé direito ou o pé esquerdo, com ou sem Havaianas e sem medo da caminhada, pois, como diz o dito popular: “A vida é como um sutiã: a gente tem que meter os peitos”.