Conheci Buiú no conjunto habitacional em que eu morava. O bloco em que ele vivia com a mãe, o pai e a irmã era no caminho do supermercado e muito perto do apartamento dos meus tios. Talvez ele tivesse a mesma idade do meu irmão, que é cinco anos mais novo do que eu. O nome real, eu não lembro.
Era um menino quase retinto, dos olhos muito pretos, puxados como de indígena. Os cabelos muito lisos, também pretos. A mãe dele, com algum distúrbio psiquiátrico, era a figura folclórica do bairro, apontada como uma pessoa assustadora para as crianças. Uma espécie de “velho do saco “. Alta, magra e com um andar desajeitado, com os braços longos a balançar ao redor do corpo, falava com dificuldade e pedia esmolas. O pai, alcoólatra, agredia muito a pobre mulher. Os filhos acompanhavam o casal como pedintes e brincavam na rua com os demais vizinhos.
Em um dia triste, aconteceu uma tragédia. A mãe do Buiú, em um surto psicótico, matou o pai com uma facada. Não sei se as crianças viram. Eles tinham dez anos, no máximo. Na época, vizinhos comentaram que devia ser por vingança devido a tantos maus tratos.
Uma tia veio ajudar a terminar de criar os meninos e cuidar da mãe de Buiú. Com o tempo, o menino foi aprendendo a dar trabalho. Se envolveu com más companhias, aprendeu a vender e usar drogas. Virou adolescente valente, brigão. A vizinhança passou a temê-lo e ele, talvez pela vaidade de se sentir temido, começou a se tornar perigoso e a roubar os comércios do bairro.
Com um revólver, ele foi em todos os estabelecimentos – das mercearias à papelaria e também na farmácia e no supermercado. Passou a fazer assaltos em plena luz do dia, sem temer a polícia nem os donos dos estabelecimentos. Com a ação dele, os comércios passaram a fechar mais cedo e adotaram portões fechados. Foi um terror. Isso tudo muito antes das facções.
A irmã se juntou com um primo e passaram uma parede para dividir o velho apartamento no térreo. Engravidou cedo, talvez antes dos 15 anos. A mãe de Buiú adoeceu e morreu alguns anos depois.
Mais tarde, Buiú levou dois tiros de um desafeto na coluna e ficou paraplégico. Mesmo assim, continuava com as atividades fora da lei e se escondendo, para que não fosse preso, nem morto pelos inimigos. Apesar de não ter endereço certo, um dia, a morte achou seu paradeiro e ele foi assassinado bem antes dos 30 anos.
O apartamento, que guardou as marcas dos crimes, da violência e de tantas dores, foi reformado e vendido e, hoje, quase ninguém mais lembra dessa família e dessa história triste.
Entre os meninos que morreram jovens, por conta da violência urbana no meu antigo bairro, essa foi uma das histórias com uma família desestruturada como pano de fundo. Era tão perto de mim que eu nunca esqueci e tenho outras histórias comigo, tão tristes quanto essa.
A intenção é mostrar que existe humanidade por trás dos números de jovens assassinados. Não é apenas uma estatística e não está tão longe da gente. Os números tem rosto. E um deles foi o desse homem.
