Talvez a borboleta monarca que nasceu junto com setembro de 2025 tenha sido a décima a bater as asas aqui. Terminei por perder as contas de quantas já estiveram nas caixas de sapatos do meu apartamento para poderem se transformar em paz de lagartas para borboletas.
Quando observo a planta hospedeira venenosa com lagartas listradas, sempre fico tentada a levar uma para casa e ver a transformação que eu já conheço. O tamanho e a grossura da lagarta mostram se ela deve estar perto ou não de se pendurar para virar casulo. Elas lá na natureza, só vi as que não deram certo. Geralmente as lagartas fazem os casulos em lugares de fácil acesso. As formigas furam e matam as borboletas em formação. Moscas também costumam parasitar os casulos e impossibilitar o restante da metamorfose. Por isso, de vez em quando, eu trago elas para casa ainda como lagartas.
Dessa vez, trouxe a lagarta menor de todas. Ela era menor que minha unha, um tracinho com risquinhos. Uma fofura de bebê. Passei uma semana trazendo folhas fresquinhas todos os dias e ela tentou fugir da caixa duas vezes. Foi assim que percebi que as lagartas também trocam de pele. Ficam com um comportamento parecido com o de quando vão se transformar em casulo. Mas, na verdade, é só para trocar de roupa. Essas danadinhas ficam dez ou mais vezes maiores do que no início da vida.
Depois de sete dias como lagarta, chegou a hora de se pendurar. Essa, em vez de esperar a madrugada, para amanhecer casulo, fez a metamorfose de tarde.
Como as outras, demorou sete dias nesse lento transformar, que traz detalhes muito belos. No fim do processo, vira um casulo verde jade com bolinhas douradas. Uma jóia da natureza.
Ontem, estava verde quando fui dormir. No entanto, quando acordei, já estava escura, o que demonstra que a hora chegou. É a transparência do casulo, que revela o preto das suas asas, o contorno do laranja e das bolinhas brancas.
Tomei banho e pensei, que lagarta doida, esses horários estão totalmente trocados. São 7h da manhã e nada dela sair no casulo. Que estranho!
Fui tomar banho e, na volta, lá estava ela, fora do casulo, com as asinhas encolhidas. Esse não é o horário habitual. Por que ela teria se atrasado?
Tirei uma foto e percebi que era mais uma borboleta macho. A maioria das que nasceram aqui é macho e podemos identificar por meio de uma mancha preta em formato circular nas asas.
Perto das 13h, notei que ele continuava na caixa aberta, mas olhava de um lado para o outro, procurando talvez a saída, sem achar. Foi só eu abrir mais a tampa que ele logo voou para a janela, embora tenha tropeçado no bebedouro dos passarinhos.
Antes que eu pegasse o celular, saiu voando para o outro condomínio. Deu uns rasantes, mas conseguiu voar alto com suas asinhas laranjas até eu perde-lo de vista indo para o supermercado que fica aqui vizinho.
Tanto faz se ele fez o casulo de tarde ou nasceu já com o sol alto. O que importa é que voou e irá cumprir o seu destino e, pelo que sei, as duas principais missões são acasalar e viajar. As borboletas monarcas, pelo jeito, vivem melhor que muita gente. Que venham as próximas e a primavera cearense, que tem um cheiro bom de caju.
