Era uma segunda-feira mais ou menos normal. De estranho, apenas a chuva. Em julho, geralmente, o clima está mais seco no Ceará. Deve ser mais uma consequência das mudanças climáticas. Sigo com o tempo apertado para o trabalho. Com a temperatura mais amena, as cobertas me seguraram um pouco mais na cama.
Decidi não colocar música nos fones pelo aperreio da hora. Quando saí do condomínio, não estava chovendo, mas bastou terminar meu café no trailer da rua que começou a garoar.
Ignoro a regra de não poder tomar café quente e sair na chuva, abro o guarda-chuva e atravesso a rua Rio Negro. Perto da esquina com a rodovia, avisto umas pessoas olhando para cima, ignorando os chuviscos. O que será isso mesmo? Chego mais perto, tem um cone na calçada. No coqueiro, vejo umas abelhas pretas rondando. Até que as pessoas no outro lado da rua gritam: “olha a cobra!”
Como assim uma cobra em plena segunda-feira no meio da rua? Não encontro no chão. Está em cima da palmeira.
Gordinha, vermelha e marrom em vários tons, enroscada na copa da árvore. Tomando seu bom banho de chuva, de olhinhos fechados, nem liga para as abelhas logo abaixo. Muito menos para os gritos das pessoas.
Eu, que não tenho medo de cobra, me ajeito com o guarda-chuva e a mochila na chuva para fotografar. Essa é a primeira cobra que vejo de perto em quase dez anos. A última vez foi na Festa da Carnaúba do povo Tapeba.
Ao serem alertadas para não passarem pela calçada, uma mulher com roupa de academia aperta os olhos sem entender a razão do montinho de pessoas do outro lado da rua. Quando avista o motivo, se benze, grita e pula de medo. Falta cair na calçada.
“Mas é só uma jibóia, gente. Ela não vai dar o bote em ninguém”, eu tento tranquilizar.
“Que nada, ela pode comer animais pequenos, como gatinhos e cachorros, não sabia?”, responde a mulher com roupa preta que também segue apressada para atravessar a rodovia e pegar o ônibus, como eu.
Foto feita, atravesso a rodovia e fico me perguntando: por que essa cobra subiu na árvore? Vinha de onde? Terá atravessado a avenida de madrugada e queria tirar um cochilo tranquila depois de comer algum rato? Será que vinha do rio? Era fêmea ou macho? E se for fêmea, será que está grávida?
As perguntas ocupam minha cabeça vazia no percurso do ônibus da Empresa Vitória até o centro de Fortaleza. O sossego é por saber que terei pelo menos três dias sem me preocupar com os filhos de férias, porque eles foram passar esse tempo com os avós.
Tem dias em que a crônica já vem prontinha para a página. A realidade, às vezes surpreende e ajuda na inspiração. Ainda bem!
