No tempo em que eu vivi um isolamento social que me preparou para o da pandemia, inventei um clube de leitura. Recém saída do jornal, procurava encontrar quem gostasse de ler e uma casa mais alegre, com algumas amigas que pudessem conversar comigo.
Nessa época, eu mal falava com adultos. Minha linguagem se resumia a cantar músicas do Bob Zoom, Mundo Bita, Palavra Cantada, dormir sempre fora de hora e amamentar. Era um zumbi diferente do que sou hoje.
Depois de ver uma resenha da Tati Feltrin, escolhi que o livro lido por nós seria As Meninas, da Lygia Fagundes Telles. Esse seria o meu primeiro contato com a autora. Quem leria comigo?
Saí em busca das amigas. Depois de uma semana procurando, vieram cinco pessoas: a Rosi, jornalista e minha parceira no blog Duas Estantes, Jamilly, que eu conhecia há uns quinze anos e não via há uns 11, Adriane Estácio, minha amiga de muito tempo que agora era professora da minha filha, Janaína e Rosana, que também ensinavam na escola e compartilhavam os alunos do Ensino Fundamental.
Como não tinha o livro, tratei de comprar no sebo. A edição que achei tinha capa dura e era do Círculo do Livro. Reconheci porque minha mãe fazia parte desse clube nos anos 1970. O livro usado tinha pertencido ao Milton Dias. Eu pensei que fosse o cronista de quem eu gostava, mas era só um homônimo.
Em um mês de leitura, minha mente ficou tentando desvendar tudo aquilo. Era profundo, confuso. Parecia linguagem cifrada, principalmente quando a fala era da Ana Clara, a moça que usava drogas e tinha sofrido todo tipo de abuso na infância. O livro trata da história de três amigas nos tempos da ditadura militar. Uma é virgem, meio ingênua e rica. Uma usa drogas, é confusa e a outra é militante contra o regime.
Ninguém gostou do livro e nem conseguiu apreender a profundidade da obra. Nos decepcionamos. Talvez não fosse a hora certa de ler, quem sabe?
Daquele meu grupo de leitura, As Meninas, que teve várias versões e deve ter agregado umas 12 pessoas desde 2016, as integrantes tiveram destinos surpreendentes. Muito mais que as meninas do livro de Lygia.
Uma das nossas meninas depois de ter se casado duas vezes e ter tido dois filhos em cada um dos relacionamentos, voltou com o namorado da adolescência e se casou com ele. Está vivendo dias lindos, depois de muitos percalços. A outra das meninas morou um tempo no hospital desde que seu filho nasceu porque ele tem uma síndrome genética. Hoje, já está em casa com ele. A gente nunca mais se viu, mas queria muito dar um abraço. Quero tanto bem a ela. Outra menina também está grávida e agora é farmacêutica. Já viajou para a Europa várias vezes e parece ter encontrado o grande amor da sua vida, com quem divide tudo em três cidades diferentes, Caucaia, Paracuru e outra que não lembro, na Noruega. Acho que nenhuma delas em 2016 imaginava as voltas que o mundo daria.
Eu sigo diferente também. Voltei a trabalhar fora, escrevi um livro, me divorciei, emagreci, fiquei loira, dei uma surtada e ando questionando muita coisa que acreditava de olhos fechados. A vida me deu umas rasteiras, mas eu me levanto, de teimosa.
Depois desse livro da Lygia, ainda li outros quatro, muito melhores. As crônicas que estão em Durante Aquele Estranho Chá me fizeram chorar em uma tarde de sábado, quando soube que Gilmar de Carvalho tinha partido. Antes do Baile Verde, com os primeiros contos publicados, me deixaram muito admirada com a capacidade da autora. Que genialidade! E o Venha ver o pôr-do-sol, que é livro miúdo e paradidático, é outra grande referência. Oito contos de amor, que comprei no sebo do Geraldo, passei para frente porque me dei de presente o livro verde com todos os contos.
A Lygia partiu, deixando um grande legado na nossa literatura. Eu continuo preferindo seus contos e crônicas, assim como tenho essa preferência com a Clarice Lispector, sua grande amiga. E as meninas do meu grupo sei que devem lembrar daquele encontro desengonçado com bolo de cenoura lá no meu antigo apartamento sem sofá. Um beijo em todas.
