Menu

As IAs e as Crianças

Há cinco anos, ficávamos impressionados porque as crianças sabiam usar o YouTube. Então, vieram as estatísticas mostrando que as mesmas crianças que conseguiam encontrar qualquer vídeo online, aos cinco anos, ainda não sabiam amarrar os cadarços. Hoje, uma criança não precisa ser capaz de fazer nenhuma das duas coisas. 

Amarrar os cadarços ficou desnecessário desde o velcro. Encontrar vídeos na internet agora é um trabalho que uma IA faz para você. Isso pode parecer uma conquista tecnológica, mas não é conquista alguma. 

É maravilhoso que haja IAs, afinal, elas encontram células de câncer, sinais de Alzheimer e de esquizofrenia muito mais rápido do que nós, humanos. Queremos IAs. Mas pode ser que a gente não queira IAs nas mãos das crianças, na fase em que seus cérebros estão aprendendo a funcionar no mundo.

Uma criança que pode pedir à IA para desenhar um tubarão de casaquinho e chapéu talvez nunca desenhe esse mesmo tubarão. A IA dá a sensação de conquista sem dar espaço para o esforço.

Esqueça a lição de casa. Essa nunca deveria ter existido e é um fracasso que as escolas precisem passar lição para casa em lugar de serem integrais e terem espaço para a lição ser feita na escola.

Mas pense nos bilhetes de amor. Hoje, adolescentes começam a usar IAs para enviarem as mensagens corretas para seus crushes. Dizem que funciona. Mas que cérebro vai resultar de uma adolescência que não correu nem mesmo o risco da paquera?

Podemos argumentar que eles precisam aprender a usar as ferramentas do futuro. A ferramenta do futuro é o cérebro. O chatbot não é futurista. Ela usa tudo que os humanos desenvolveram no passado para gerar produtos de qualidade questionável no presente. O futuro nós não conhecemos, por definição, e não sabemos que tipo de tecnologia ele vai trazer. Em 2021, nem você nem eu podíamos imaginar que o ChatGPT chegaria em 2022. Hoje não temos como imaginar o que virá no final de 2027.

Para um futuro desconhecido, com tecnologias misteriosas, sabemos só de uma coisa: bons cérebros, criativos, inteligentes, rápidos e capazes de esforço e adaptação vão se dar melhor. E esses cérebros só podem ser construídos quando existe esforço e desafio.

Eu sou um educador a favor das telas. Hoje em dia eu até ensino pais e professores a oferecerem as telas para as crianças. Mas as IAs devem ser bloqueadas. Do mesmo jeito que crianças podem usar facas e tesouras, mas é bom ter um adulto por perto, elas podem usar IAs, mas não sem companhia de um responsável. Assim como podem comer chocolate, mas não duas barras inteiras, também podem pedir para a IA criar um polvo em um fusquinha, mas não podem terceirizar toda a sua criatividade o tempo todo.

Para as empresas que vendem IAs, é bom que a gente se sinta inútil. Para as crianças, a sensação mais importante é a da conquista pessoal. Essas duas não podem existir juntas.

Quatro formais legais de usar telas com crianças

1- Assistir desenho pertinho – Passar o dia na frente da TV não é bom. Mas assistir meia hora de desenho com pipoca, cafuné e massagem no pé, conversando sobre a história e rindo junto com os pais é maravilhoso.

2- Passeios virtuais – Existem museus no mundo todo (e no Brasil) com opção de passeios virtuais. Também existem pontos turísticos assim, e você pode passear pelas ruas de qualquer cidade com o Google Street View. É um uso incrível das telas.

3- Jogos para Dois – Coleções de jogos para duas pessoas, como o app 2 Player Games, oferecem opções como Jogo da Velha, Ping-Pong e outros, para dois jogadores na mesma tela.

Dica geral: Para crianças, as telas mais lentas são melhores, e programas com filmagens reais são melhores que desenhos. Os jogos sem nada que possa ser acumulado (como moedas ou diamantes) são melhores, porque trabalham com a motivação interior e não com a manipulação.