“Sempre chegamos ao sítio onde nos esperam”
(Oração para Desaparecer – Socorro Acioli)
Em 2023, após um período de adaptação depois de uma forte turbulência, me reencontrei com uma versão minha do tempo da pesquisa da monografia, em 2004. Após décadas dormente para temas dos povos originários, o Universo colocou no meu caminho uma pessoa que trazia com ela todos esses elementos de quando eu estava para concluir a graduação – a Cultura Popular, os Encantados, a história do Ceará e a temática indígena.
Animada com esse reencontro com o meu eu de 20 e poucos anos, lembrei da Igrejinha de Almofala dos Tremembés e comecei a tecer uma história romântica com aquele cenário histórico e praiano.
No decorrer do ano, comprei minha edição do livro Oração para Desaparecer e escolhi ler no caminho para a casa do meu pai, em Jijoca, em junho de 2024, até para lembrar do grolado, aquela farofinha boa de goma com coco e dos rios do caminho.
Com o livro concluído, cheio de trechos grifados e molhados das lágrimas de emoção pela história de amor de Miguel e Joana Camelo e de Cida e Jorge Momade, recebi o convite para virar o ano de 2024 para 2025 conhecendo a minha sonhada igrejinha branca, em Almofala.
Enfim, chegara a minha vez e de um jeito lindo e completo, porque seria com a companhia que trouxe minha versão antiga de volta e me colocou para sonhar com a pesquisa que eu deixei na gaveta por tantos anos. Não podia ser melhor!
Conforme os meses foram passando, a viagem ia se confirmando. Tudo encaixava perfeitamente. Transporte, hospedagem, o feriado de folga. Eu fechava os olhos e já me via em frente à igreja e pedindo as bençãos de Nossa Senhora da Conceição para a vida nova que eu tinha e para aquela história que havia se desenrolado até ali.
No entanto, em uma semana, a última do ano de 2024, tudo foi enterrado, como a ocorreu com a igrejinha por 49 anos. A sonhada viagem não deu certo. Meses depois, a história virou pó. Não era pra ser. Melhor assim.
Entendi que a igrejinha disse que queria me ver sim, mas em estado de solitude. Que eu teria de ir para pedir a abertura dos novos caminhos. Pisar aquele chão e alisar as paredes cheias de buzios triturados, que passaram décadas soterradas, longe de distrações amorosas. Quem tem a história com a igrejinha sou eu. E adentrar o templo acompanhada só aprofundaria as feridas de um sentimento que não tinha raiz. Não era ainda a hora de eu entrar por aquelas portas.
O vento soprou, derrubou a frágil história que eu idealizei. Pouco depois da página virada, meu tio que mora em Amontada me convida e pede que eu vá logo, porque já adiamos demais essa visita e o amanhã é incerto, nunca sabemos o que pode nos acontecer.
Será que dessa vez, eu ia conhecer a igrejinha de Almofala? Eu conto na próxima crônica. Me aguardem.
