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Agora é brincar de viver

Como cronista, vivo atenta. Eu sei que tudo pode render um texto. Sou como aquele que procura por moedas no chão pelo caminho e refaz o trajeto para ver se encontra. 

Toda segunda é assim. Eu fico procurando um motivo para escrever cascaviando na memória curta o que ocorreu durante a semana. Nesta, decidi que escreveria sobre as sensações ao ouvir Brincar de Viver, ao vivo, pela segunda vez. 

Em abril, a escutei na voz do compositor Guilherme Arantes, no Teatro RioMar. Conversador e em recuperação de uma cirurgia recente, o cantor contou no palco vários bastidores de suas composições. Essa em específico, eu não lembro. 

Ao pesquisar na internet, encontrei pouca coisa, mas já algumas coincidências, como o fato de ter sido escrita no ano em que nasci. Foi para um musical infantil que passou na televisão. Essa canção encerrava o programa e foi interpretada por Maria Bethânia. Ao saber da notícia de que ela topou cantar sua música, Guilherme Arantes chorou, emocionado. 

No recente show de Caetano e Bethânia na Arena Castelão, essa foi a única música que me fez chorar. Eu, geralmente, saio desidratada de chorar dos shows que vou, seja qual for o artista. Me emociono só de ter a oportunidade de ir, porque essa é uma conquista nova e muito desejada. Toda vez, me sinto um pouquinho mais rebelde e ousada. Um ato tão simples para tantos. Para mim, não. 

Desde novinha, a luta era grande. Eu brigava até conseguir que meu pai deixasse. Mais tarde, as brigas deram lugar à apatia, porque eu sabia que não ia adiantar lutar por isso. Eram outros tempos. Passaram. 

Chorei ouvindo Bethânia cantar porque prestei atenção na letra e me dei conta de que a diversão na minha vida começou há pouco. Eu ando brincando de viver, mas devido ao pouco costume, eu ainda tendo a ser mais séria. Acho estranha essa liberdade. Sou tal qual um passarinho novo que encontrou a gaiola aberta. 

Aprendi que ninguém é o centro do universo, nem eu mesma. A história não tem fim. Consigo sorrir, em meio às lágrimas, quando o mundo me diz não. E ele tem me falado não para muitas coisas nos últimos meses. 

Mas eu quero, sim, amar a todos os que eu encontrar pelo caminho. E, se tenho buscado a felicidade tanto e tanto, eu quero ver feliz quem andar comigo. Mesmo que essa felicidade seja para se afastar de mim, para perseguir outros sonhos e outros amores. Não sou gaiola.

Para reaprender a sonhar, enfrento o medo do desconhecido todo tempo. Tem dias que o medo me paralisa e me sinto em uma armadilha. O choro vem e eu me liberto e volto para os afazeres. 

Estou redescobrindo meu lugar no mundo, me ajeitando no ninho novo que construí para mim e meus filhos. Tenho tentado fazer um caminho novo. Seguir sempre, mesmo que tenhamos desvios, por conta dos nãos que a vida dá.

Fechei os olhos ao terminar de escrever e eles estavam molhados de novo. A música tem esse poder.