Na semana, dois amigos professores perguntaram-me se eu já tinha assistido à minissérie, “Adolescência”. Após relatarem uma breve sinopse, como professor que sempre divide com os alunos conhecimentos empíricos e científicos e saberes artísticos, decidi assistir. A minissérie britânica tem como trama os “Incels”, abreviação do termo inglês “involuntary celibates”, celibatários involuntários. Jovens adolescentes que se comunicam on-line e que criam uma espécie de subcultura que busca estabelecer contatos afetivos e românticos, mas são incapazes de estabelecer tais relacionamentos. A trama parte da ideia de que, “em todo o mundo, 80% das mulheres se interessam apenas pelos 20% dos homens considerados mais atraentes”, ou seja, deixando o restante deles à margem das relações afetivas. Esse sentimento de exclusão dos homens, cuja natureza não foi tão generosa com suas aparências físicas e tão pouco têm o poder do dinheiro para se tornarem mais belos e atraentes, os faz se sentir injustiçados. No século XIX, Karl Marx já escrevia que a posse do dinheiro podia suprir a feiura. “Sou feio, mas posso comprar a mais bela entre as mulheres. Meu dinheiro não transforma todas as minhas deficiências em seu contrário?”.
Para alguns antropólogos, a beleza atraente, diferente, é muito antiga. Os primitivos homens das cavernas sentiram-se atraídos pelas primeiras mulheres que sofriam mutações, as ruivas. Daí o fetiche dos homens, ainda hoje, por esse tipo de mulher. Naquele ambiente, as mulheres sofriam dos homens constantes incômodos sexuais. Diante de tantos incômodos, as mulheres inventaram, de certa forma, o “casamento”, ao escolherem homens, de preferência viris e fortes, bons caçadores e guerreiros, para que as protegessem e as proles. Muito tempo depois, entre as classes mais abastadas, surgiu a concepção do homem como ‘bom partido’ nos casamentos entre essas famílias, ou seja, homens não necessariamente bonitos, mas com posses e ricos. Antes do casamento físico, era realizado o casamento econômico, ou seja, do pagamento do dote. Amor é uma invenção burguesa do século XIX. E os homens feios, não atraentes fisicamente, sem dinheiro ou dote? Inclusive, o escritor, filósofo, semiólogo Umberto Eco tem uma bela e intrigante obra de pesquisa sobre o assunto, “História da Feiura”. Diferentemente dos relacionamentos virtuais criticados pela minissérie, ainda hoje com algumas mudanças, os relacionamentos tradicionais se perpetuam em algumas culturas.
Na cultura Islâmica, um homem pode se casar com até quatro mulheres, na condição de que possa sustentá-las igualmente. Na cultura chinesa, a política de preferência pelo filho homem desequilibrou nos nascimentos de meninas, causando a compreensível estatística: para cada 100 mulheres, existem 114 homens. Consequência, o sujeito que chega aos trinta e dois anos, por não ser atraente e não ter dinheiro para pagar o dote, entrará na estatística dos trinta milhões de homens chineses que não encontrarão uma esposa. Certa vez, presenciei umas garotas conversando sobre os namorados e uma que parecia ser cobrada por não ter um parceiro, disse: “Agora, eu também tenho um namorando, e é casado. Questionada pelas amigas, respondeu: “Eu ia bem ficar sem namorado! E ele tem carro e me dá tudo”. Aqui do lado Ocidental, essas distorções acabaram afetando especialmente os homens. Esse ressentimento dos homens em relação às mulheres só cresce, especialmente entre esses adolescentes (Incels). Criados trancados em seus quartos com celulares a disposição sem quase interação com o mundo exterior, – vivenciando: a violência doméstica, namoros virtuais com formatos quase incompreensíveis e frouxos, convivências tóxicas por parte de ambos os sexos, terceirização da educação, o descontrole emocional sem empatia, sem envolvimento afetivo nas relações e do crescimento do desamor. Todas essas questões parecem explicar parte da trama da minissérie.
Por sinal, a minissérie não envolve, não é atraente de se assistir e tão pouco traz novidades sobre as diferenças de comportamento sexuais de mulheres e de homens. No máximo, busca fazer uma crítica do vale tudo da internet e das redes sociais. E por falar nisso, a minissérie “Adolescência” acaba de ser integrada pelo Reino Unido ao currículo escolar. Seria mesmo necessário? Não seria melhor incentivar os alunos a estudarem mais filosofia, sociologia, direito constitucional, as relações étnico-raciais, a sexualidade e poder?
