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Acordo ou cessar-fogo para inglês ver 

Ah, o mercado, sempre ele determinando tudo, inclusive as guerras. Na segunda-feira (13), ao ver aquela cena esdrúxula, Trump discursando, pousando de bom moço e assinando o “acordo de cessar-fogo” com os líderes do Egito, Catar e Turquia, sem a presença dos interessados, Netanyahu, o mandatário do Estado de Israel e o líder do Hamas, pensei: Será que o povo está entendendo esse babado? Será que, em plena terceira década do século XXI, vamos sempre assistir nas TVs e na grande mídia, uma única versão – dos EUA e dos dominadores de plantão? E a versão da TV Al Jazeera, com sede no mundo árabe? TV que tem “70 escritórios ao redor do mundo e mais de 3.000 funcionários em mais de 95 países”. Não seria interessante deixar claro para a população desavisada as verdadeiras motivações dos três países assinarem tal cessar-fogo? Por que Trump mudou de ideia sobre a criação de um resort em Gaza e passou a pressionar Netanyahu a fazer a “paz”, sem pensar em questões humanitárias? E, por falar em questões humanitárias, respeito pelo outro e pela vida, é uma pena constatar que o capital determina as regras do jogo. No século XIX, o Brasil já fez uma “lei para inglês ver” sem dar a mínima por todas essas questões, pressionado pela Inglaterra, a potência imperialista na época, para acabar com o tráfico negreiro. Diante da pressão, os políticos da Terra Brasilis tiveram que aprovar a Lei Feijó de 1831, que proibia o tráfico de escravos. O governo inglês também não estava preocupado em abolir o tráfico por questões humanitárias. O verdadeiro interesse era tornar o trabalho escravo em mão de obra livre assalariada e, assim, ampliar mais ainda o seu mercado de consumidores de seus produtos excedentes da Revolução Industrial. A lei não foi efetivamente fiscalizada e o tráfico de escravos continuou intensamente, – centenas de africanos foram introduzidos ilegalmente no Brasil. A lei era apenas uma medida aparente para satisfazer o interesse inglês, ou seja, como se dizia na época para leis ineficazes: “Lei para inglês ver”. O Estado Brasileiro e o Estado Inglês não deram a mínima, pois os negros escravizados eram considerados na época como “coisa”, e agora, no século XXI, os EUA, Israel e potências europeias tratam os palestinos também como “coisas”. Ao serem libertados os reféns israelenses, a mídia Ocidental fez uma grande cobertura, dando voz aos depoimentos de familiares, — tudo isso é correto e inquestionável, ninguém duvida. Mas, os corpos de 60 mil palestinos mortos, em sua maioria de mulheres e crianças, de acordo com a ONU e a Cruz Vermelha. E as dores e os depoimentos do que restou de suas famílias? Alguém viu? Na recente estimativa da ONU, é que “84% do território de Gaza foi destruído e o valor necessário para a reconstrução, 70 milhões de dólares”. Com certeza, os assessores que compreendem melhor da geopolítica chamaram o mandatário Donald e o aconselharam a não entrar em atrito com os velhos parceiros de comércio do ouro negro, o Catar e a Arábia Saudita. Aconselhado, Trump forçou Netanyahu ligar e pedir desculpa ao Catar pelo ataque. Como se vê, mais uma “Lei para inglês ver”, pois o Hamas não dá sinal de querer se desarmar e abrir mão do poder em Gaza e, por outro lado, Israel não se mostra disposto a desocupar totalmente os territórios da Cisjordânia e de Gaza, e nem tão pouco reconhecer a criação do Estado Palestino. Para bom entendedor, não há paz duradoura sem a criação do um estado Palestino independente e soberano.