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A violência contra a mulher brasileira: como explicar?

As pesquisas revelam mais uma vez que só cresce a violência contra as mulheres brasileiras. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto Datafolha constataram que 21,4 milhões de brasileiras sofreram agressões no último ano, o maior índice desde 2017. O nosso querido Cariri, rico em tantas manifestações culturais, nos entristece com a revelação das estatísticas de que naquela região também só aumenta essa violência. Em pleno século XXI, é inacreditável a constatação de que os “insultos e humilhações foram as formas mais comuns, e que 18,9% das mulheres relataram violência física e que 10,7% sofreram abuso sexual”. Fiquei pensando e me perguntando, por que nesse país tropical, equidistante entre o Atlântico e o Pacífico, esse negócio de violência física e sexual contra a mulher não tem fim? E por falar em sexo, na edição do Oscar de 2025, o filme “Anora” surpreendeu o público e ganhou o prêmio de melhor filme e roteiro original, e atriz para Mikey Madison ao interpretar uma trabalhadora do sexo. Ainda jovem, observava e comentava com os amigos de mesa sobre a coragem da mulher. Dizia-lhes: ‘Como as mulheres são corajosas. Em plena madruga, mal conhecem um homem já tomado pela bebida, entram no carro e saem por aí, é muita coragem’. A partir de então, comecei a observar as relações e reclamações de ambos os sexos. Certa vez, na cantina de uma faculdade, no entreouvido de uma conversa de alunas com idades entre 25 a 35 anos a falar sobre casamento e sexo, ouvi: “Ah, mulher, a fila anda, não fica assim. Se ele não quer mais, arranja outro besta para pagar as tuas contas. Esse negócio de amor já era!”. Como eu estava na mesa ao lado e eram alunas, curioso indaguei: “Então, é assim que hoje vocês tratam os homens? Uma delas, com a resposta na ponta da língua, disse-me: “É professor, de preferência mais velho, que não se interesse tanto por sexo” e outra completou: “Quando a gente tem filhos como a gente, a coisa muda. Queremos mais é boa vida e segurança”. Em outro momento, conversando com uma orientanda que pesquisava o assunto, disse-me: “Quando eu e as amigas vamos aos shows na Praia de Iracema uma fica sem beber”. Que legal, a que não bebe fica para dirigir. “Não, ela fica sem dirigir para não deixar que uma de nós que está bebendo e vulnerável entre em carros com rapazes. Eles nos levam logo ao motel e abusam sexualmente da gente”. Então, questionei: Mas se o rapaz também estiver bêbado ou muito bêbado, ele também não vai estar em sã consciência e vulnerável, inclusive podendo provocar um acidente?”. A resposta foi direta: “O senhor sabe: o homem não presta!”. Fiquei pensando, mas os homens nascem das entranhas de um corpo feminino, são educados e dependentes das mães e mulheres, e não prestam? Pois é, por que é essa necessidade do homem que é agressivo por natureza? No sistema capitalista, nunca se viu tantos sites, grupos de WhatsApp, etc e tal com mulheres vendendo corpo dos mais variados preços para sobreviverem. No filme “Anora”, a ambientação e o espaço das trabalhadoras do sexo ou “prostitutas” para alguns, revelam essa necessidade pelo dinheiro e a coragem dessas mulheres expostas aos mais variados tipos de homens sem nenhuma segurança. Em particular, o caso de Anora ao conviver e se casar com um jovem milionário russo sem se importar sobre a origem de tanto dinheiro e poder. Sexo é poder, e a expressão sexual da vontade de poder é inerentemente agressiva. No sábado, com amigos mais velhos, o assunto sobre a relação entre homens e mulheres, o filme e prostituição caiu à mesa. Um tentou explicar: “As mulheres logo amadurecem sexualmente, mas ao terem o primeiro filho, a coisa para o homem começa a mudar” e outro, pegando a deixa, disse: “E quando se aproxima e chega a menopausa, aí a questão sexual do homem fica mais difícil”. O silencioso médico presente ainda saiu com essa: “E agora, com a evolução da medicina – academias, botox, remédios hormonais e cirurgias para calvície e azulzinhas para todo gosto e necessidade, fazer o quê?”. Naquele momento lembrei do livro “Personas Sexuais: Arte e decadência de Nefertite e Emily Dickinson” da ítalo-americana Camille Paglia que em um trecho diz: “Os homens vivem em constante estado de ansiedade sexual, pisando nas brasas de seus hormônios”. Após as estarrecedoras estatísticas de violência contra as mulheres, ouvi na TV, uma psicóloga do governo explicando e dando uma solução para conter e combater tal violência: “É preciso que os governos invistam em políticas públicas para proteger e conscientizar as mulheres contra o machismo”. Mas, como nos lembra Paglia: “a identidade pagã do sexo e violência é constantemente reproduzida nos meios de comunicação de massa, no cinema, na música popular em comerciais, vemos todos os mitos daimônicos e os estereótipos sexuais” expostos e valorizados em letras e danças, sendo a mulher o alvo favorito. Porém, nada justifica qualquer tipo de violência contra a mulher. Será que o machismo explica tudo? Será que estamos perdendo o contrato social? Será que não alcançamos o processo civilizatório?