Burro! Burro! Burro! Grita a torcida enfurecida. Na arquibancada, com celular ou rádio de pilha nas mãos, um torcedor assiste incrédulo. Atento às informações, comenta com o vizinho. Já deviam ter mandado este homem embora. Bota um gol na frente e arma uma retranca.
Escrevo sobre o técnico de futebol. É a profissão mais desrespeitada do país. Disputadas 9 rodadas do Brasileirão, 7 técnicos já foram demitidos. Existe um acordo velado na nossa organização de futebol que sinaliza sempre num sentido. O técnico é o culpado.
Na estrutura do futebol brasileiro, ele responde por tudo. Além de treinar, a equipe supervisiona todos os outros setores. Independente do seu perfil, às vezes, é até psicólogo. Com a cabeça a prêmio, sabe que tem sempre alguém querendo puxar o seu tapete.
Na verdade, raramente valorizamos o trabalho desenvolvido pelo técnico. Nossas conquistas mundiais, tanto de clubes como seleções, se apoiaram na genialidade de diversos jogadores que escreveram com suas pernas as mais belas jogadas nos gramados verdes do mundo.
Vez por outra trazemos um estrangeiro para ser técnico. O primeiro deles foi Dori Kruschner contratado pelo Flamengo em 1937. Com o hungáro veio o WM. Os brasileiros só conheciam o sistema clássico. O 2-3-5: Dois jogadores na zaga, três halfs e cinco atacantes.
O WM representava um avanço em relação ao sistema clássico que representava sua configuração através do sistema 3-5-2. Fausto, que era o center-half de extrema categoria no sistema clássico, foi quem pagou o pato. Kruschner o recuou para compor a linha de três zagueiros.
Um comentário, caro leitor, os center-halfs do sistema clássico se caracterizavam pela visão de jogo, pela extrema habilidade, pelo ritmo que diminuíam ou aumentavam de acordo com a necessidade que o jogo apresentava. Fausto virou zagueiro central e acabou barrado no time.
A velha guarda de Irajá conta uma história inspirada nos métodos de Kruschner. Dedeco, técnico dos Filhos de Irajá F.C, recuou Adilson “Negão” de center half para a posição de zagueiro central. Adilson era o ídolo do bairro e também não se deu bem com a nova posição.
Aporrinhado com o fato, Adilson brigou com o cunhado Dedeco e com sua mulher que era irmã do técnico. Triste e deprimido, uma semana depois suicidou-se. Era no tempo que as pessoas se matavam tomando guaraná com formicida. Disseram que foi por conta da tática do técnico húngaro.
