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A rotina veloz que escorre por entre os dedos da vida

Deyse acorda às 6h da manhã e coloca a água do café no fogo antes de tomar banho. Quando termina de se banhar, passa o café e corre pra se arrumar rápido para o trabalho. Penteia o cabelo, coloca a roupa social e o sapato de salto. Chama no desespero as crianças, coloca a comida do cachorro. Tenta não esquecer as chaves do carro, nem as de casa e realinha a rota um monte de vezes pra não pegar trânsito.

Chega às oito em ponto no trabalho. É cobrada pelo chefe, gestor ou líder para dar conta do trabalho de três pessoas, porque a crise resultou em um corte grande na empresa. Tem que ser positiva. Tem que ser criativa. E sempre aparece mais uma tarefa que a deixa ainda mais tempo na empresa. Sua jornada de trabalho chega a ser de 14 horas às vezes.

Ela chega em casa, dorme e o ciclo recomeça. Repetido, mil vezes sem fim, até que ela, que não é um robô, dá um tilt e troca tudo, se engancha e não consegue sair de casa. Quem nunca?

Essa é uma das histórias da peça Eu de Você, com a interpretação de Denise Fraga, que esteve em cartaz pela segunda vez em Fortaleza nesse fim de semana, no Theatro José de Alencar. São várias histórias reais que se intercalam e se sobrepõem no monólogo cheio de energia criado por Luiz Villaça.

Tem semanas que minha vida parece com a da Deyse. Repito o ciclo de acordar às 6, apressada e levar o menino pra escola no desespero e correr para o meu trabalho. Para aliviar um pouquinho o cansaço, a gente merenda na rua. Em vez de pegar o carro e fugir dos engarrafamentos, eu e meu filho às vezes saímos mais cedo pra ir à escola a pé. Tem dias que a gente dorme demais e pega o ônibus ou um Uber até lá. Depois, pego meu ônibus pro trabalho até o centro. Enquanto atravesso a cidade, corrijo umas noticias no celular. Desço e pego um moto Uber no trajeto que falta, porque o outro ônibus demora demais.

Chego às nove e fico até às 18h. Tento dar uma pausa depois de engolir o almoço pra ler um capítulo de um livro qualquer de ficção.

Saio do trabalho e espero uns 40 minutos pelo ônibus que faz uma parte do trajeto. Nos fones de ouvido, escuto um áudio livro de romance, só pra me distrair. Desço de um ônibus e pego o outro.

Chego em casa, abraço meus filhos, tomo um banho, como alguma coisa e me tranco no quarto. É hora de revisar um jornal. O terceiro turno. Os olhos baixam de sono. Mas tento me manter atenta. Passa uma hora, uma hora e meia, concluímos mais uma edição. Abro a porta. Convoco meus filhos para uma oração, pergunto se comeram. Mando deitar para dormirem. Um beijo de boa noite e o ciclo recomeça.

Assim são cinco dias, geralmente iguais. A diferença é porque tem dias em que tenho consulta médica de noite e uma vez na semana vou na academia, em vez de trabalhar de noite. Tento ser forte, porque a vida pede. Se reconstruir é um processo longo e eu ainda estou no início.

Chega o sábado, durmo até mais tarde, a rotina corre mais devagar. Aula de dança e academia. Quem sabe uns beijos no namorado? Volto pra casa, durmo, mais um dia dormindo até descansar. Academia. Talvez plantão em um dos empregos ou uma visita na minha mãe.

E assim os dias seguem. Escorrem velozes por entre os dedos. Até quando? Só Deus é quem sabe. Tomara que eu não dê um tilte ou um piripaque, como a Deyse da peça da Denise Fraga.