Antes do sono sagrado, ouvi no noticiário da noite que se disseminavam nas redes sociais que: “O Presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta e o Presidente do Senado, Davi Alcolumbre eram inimigos do povo”. Naquele instante, lembrei-me da Revolução Francesa, quando um povo faminto e miserável passou a enxergar o rei e a nobreza como inimigos. Luís XVI e os nobres reagiram com incredulidade, desprezo e, por vezes, com violência. Alguns, incapazes de compreender a revolta popular, apenas se perguntavam: ‘O que foi que fizemos?’. Naquela noite de vento frio, sonhei que as redes sociais não só agitavam, mas tiravam o povo da letargia do cotidiano – celular, sofá, cadeira e cama, “lendo” e assistindo aquele besteirol de sempre. Fazendo-os pensar um pouco sobre a realidade que bate à porta no dia a dia: o povo empobrecendo, as elites ficando mais enriquecidas, o Centrão e seu fisiologismo e o Congresso Nacional, que em sua grande maioria não os representa de uma vez por todas. Da letargia à consciência e a ação, ainda que provisoriamente, se deram conta de que o inimigo do povo não era o STF como pregam, a extrema-direita, bolsonaristas e gente levada como massa de manobra, e a acreditarem: juízes, desembargadores, advogados, deputados e senadores, que não sei onde foram formados, que desdenham do povo e não respeitam a Constituição Federal. Essa realidade os levou a se organizarem e a reagirem através de uma passeata pacífica rumo à Brasília, porém que escondia uma surpresa. Após milhares de pessoas, em sua maioria de jovens, pacificamente se aproximarem o que puderam do Congresso Nacional, o inesperado aconteceu. As fileiras de frente ergueram suas faixas com palavras de ordem, impedindo a visão dos soldados. Naquele momento, todos, silenciosamente, foram tirando de suas bolsas e bolsos a munição, bilas de aço e as armas, as baladeiras, e gritando: “Inimigos do povo, inimigos do povo!”, – disparando contra o patrimônio arquitetônico criado e edificado pelo gênio Oscar Niemeyer. Simultaneamente, aos ataques, a “revolução das baladeiras”, um ativista com um microfone e o som potente denunciava o óbvio: “Já faz tempo que os verdadeiros inimigos do povo, o Congresso Nacional e o Senado, os ricos e poderosos que não querem pagar Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), que os grandes empresários também se recusam a pagar impostos, mas recebem subsídios de milhões do governo. Saibam! O governo brasileiro, através BNDES, transfere recursos ou concede vantagens a grandes empresários. Para vocês terem ideia, entre 2005 e 2015, só para a JBS foram mais de R$ 10 bilhões e mais R$ 8 bilhões para a Odebrecht. Em 2010, o governo desembolsou R$ 190 bilhões em 2010 para grandes grupos empresariais. É preciso dizer, continuava o ativista: só em renúncias fiscais e incentivos setoriais foram favorecidos: a indústria automobilística, Renault, GM, VW e o agronegócio, exportadores e frigoríficos. Só no Plano Safra para o agronegócio foram mais de R$ 400 bilhões em crédito rural em 2023/2024, e parte com juros subsidiados”. Naquela manhã, acordei meio confuso me perguntando: seria sonho ou realidade? Cedo da manhã, indo ao trabalho, pelas redes sociais, ouvi a denúncia do economista Eduardo Moreira: “O roubo, a corrupção, o poder sem limites e os privilégios de 1% dos mais ricos são vergonhosos. Os números são vergonhosos mesmo: os super salários do judiciário cresceu 50% só em 2024, somando 10 bilhões de reais em um ano. Alguns juízes chegam a ganhar 1 milhão de reais por mês. Outras dezenas de milhares de juízes ganham mais de 100 mil reais por mês. Nossos deputados e senadores custam 15 bilhões de reais por ano. Cada deputado custa para cada um de nós 3 milhões de reais por ano, e ainda querem mais privilégios e mais deputados para a gente bancar. E para completar ainda recebem 50 bilhões de reais por ano para gastar sem transparência alguma em emendas”. É, parece que a culpa não é definitivamente do STF. Mas, esse não é o dinheiro dos nossos impostos, do nosso suor?
