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A república de facções sobrevive de tentativas de golpe

Lá estava eu, na semana passada, em pleno julgamento dos acusados de liderar o atentado e golpe de Estado de 8 de janeiro, indo e voltando de Uber do trabalho. Entre uma conversa e outra com alguns motoristas, perguntava-lhes: “O senhor está acompanhando o julgamento no rádio e nas mídias?”.

Ouvi respostas diversas: “Eu não. O que estão fazendo com o ex-presidente é um absurdo. Esse Alexandre quer mandar em tudo!”; “Por que não fazem logo essa anistia? Tem que acabar com esse STF! Mas a gente não tem força”; e, de outro,

“Tem que prender todos eles. Os caras queriam matar o presidente eleito e quebraram tudo. Fazem coisa errada, não respeitam a Constituição e não querem ser presos?! Esse tal de Centrão parece uma facção. Se fosse um de nós, já estaríamos presos. Mas eu não entendo de política, doutor”.

Então comentei: “De uma maneira ou de outra, todos entendemos de política”.

Esse negócio de exercer a cidadania e a política é antigo. O historiador Heródoto afirmou ter sido Péricles, estadista, orador e estratego de Atenas, quem usou pela primeira vez, em sua Oração Fúnebre, a ideia de que a democracia é o governo “do povo, pelo povo e para o povo”.

Frase que se tornou célebre no século XIX, após ter sido usada pelo presidente norte-americano Abraham Lincoln. Inspirada na democracia ateniense, a turma do Tio Sam acabou estruturando uma democracia que se tornou referência ao chamado mundo civilizado. No entanto, no início do século XXI, a democracia norte-americana anda dando sinais de declínio.

Na Terra Brasilis, a construção da democracia indireta e representativa também teve inspiração na democracia ateniense e estadunidense. A democracia ateniense tinha como uma de suas características a propriedade privada e a plutocracia — o governo dos ricos, em que o povo era conduzido pelas classes mais abastadas.

Homens filhos de pai e mãe atenienses, ricos ou pobres, podiam votar na Eclesia, a principal assembleia popular, que se reunia para tomar decisões e exercer os poderes legislativo e executivo.

E por falar em democracia, plutocracia e poder de legislar e julgar, vale citar um trecho da Oração Fúnebre de Péricles, relatada por Tucídides:

“Sabemos conciliar o gosto pelo belo com a simplicidade e o gosto pelos estudos com a coragem. Entre nós, não é desonroso admitir a pobreza, mas o é não tentar evitá-la. Os mesmos homens podem dedicar-se aos seus negócios particulares e aos do Estado. Os simples artesãos podem entender suficientemente das questões políticas”.

Por aqui, creio que nenhum brasileiro gosta de viver na pobreza. Recentemente, o Banco Central publicou um estudo identificando a relação inversa entre renda e juros no país. Segundo o BC, “Trabalhadores que recebem entre 1 e 2 salários mínimos pagam entre 28 e 44 pontos percentuais a mais em crédito pessoal do que os que ganham acima de 20 salários mínimos”.

Então, como tentar evitar a pobreza diante de tanta concentração de renda e desigualdade social? Pesquisas apontam que os menos abastados não têm acesso a uma educação de qualidade e enfrentam poucas possibilidades de ingresso no ensino universitário.

Assim como em Atenas, em pleno século XXI, somos governados por uma plutocracia não só política, mas também jurídica. Na Terra Brasilis, senadores, deputados e juristas, em sua maioria, parecem legislar em causa própria e em benefício dos seus pares. O Centrão e a extrema-direita, ao tentarem excluir o STF dos seus desmandos, mais se assemelham a facções do que a representantes do povo, especialmente ao defenderem a anistia aos envolvidos na tentativa de golpe de Estado.

Transformar o feriado de 7 de Setembro em desfile da extrema-direita com bandeira dos EUA é simplesmente inadmissível.

Na quinta-feira, dia 11, o STF respondeu a todo o povo brasileiro — e em particular ao motorista de Uber que disse não entender de política, mas defendeu o respeito à Constituição. Ao condenar o ex-presidente Bolsonaro e sua turma golpista — generais, tenente-coronel, deputado e delegado da Polícia Federal —, a Corte acabou promovendo uma reparação histórica à Lei de Anistia de 1979, que havia deixado livres militares envolvidos em golpes.

A reparação jurídica está feita, mas não a política, pois a extrema-direita só cresce e se organiza.

Na política, será que um dia vamos reproduzir o comportamento dos Estados Unidos e assistir a atentados e assassinatos de líderes políticos, como Abraham Lincoln, John Kennedy e Martin Luther King?