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A paixão

Vez por outra, cruzo com o Mestre caminhando pela Beira Mar. Às vezes, paro para uma resenha, porque o Mestre é como uma sorveteria: cheio de qualidades. Alvinegro de carteirinha, não cabe em si de contentamento com a vitória sobre o Cruzeiro. Radiante, me informa que se esgotaram todos os ingressos para o jogo de domingo à noite, no Castelão, contra o Flamengo, e que o Vina assinou contrato com o clube. Se aproxima e me diz, como se fosse um segredo seu, o sonho de ser técnico de futebol. — Você foi técnico do Onze Cansados? Responde que não, mas sabe como tudo começou.

“Os jangadeiros estão voltando. Mulheres esperam na praia. Vamos para casa? Não! Vou jogar futebol. Ela ironiza: É! São uns cansados. Foi assim que nasceu os Onze Cansados Futebol Clube.” Gosta da ligação direta e, nos seus devaneios, substituiu um zagueiro e um lateral por dois atacantes altos, fortes e eficientes no jogo aéreo.

Um parêntese: a ligação direta acontece quando a bola é lançada pelo alto pelos zagueiros em direção ao campo adversário. Conta que o Ceará é useiro e vezeiro nessas bolas. Uma delas, lançada pelo alto por um zagueiro, gerou uma série de bates e rebates, e a bola sobrou para um dos atacantes que, de dentro da meia-lua, acertou um pombo sem asas no ângulo direito do goleiro.

Falo para ele que, hoje em dia, virou moda os goleiros, zagueiros, meio-campistas e os laterais ou alas se preocuparem com a manutenção da posse da bola e fazerem a transição da defesa para o meio-campo e ataque através de troca de passes rasteiros ou pelo alto. Do alto de sua experiência, ele responde:
— Pra lá, abacaxi! Que eu tomei leite.

Ficar trocando passes ali perto da área pode dar errado. Primeiro, esses goleiros não sabem jogar com os pés. Segundo, essa turma detrás que vai trocar passes tem que ser tudo craque. E continua: o Ceará é um exemplo. Seu lateral-direito Fabiano e o zagueiro-central Marlon são jogadores à moda antiga. Marcam bem e não se caracterizam como bons passadores. Marlon faz sempre ligação direta com Pedro Raul, e seja o que Deus quiser.
Contra o Cruzeiro, lá no Mineirão, foi a maior lambança. O Marlon não jogou, mas o Marcos Victor, zagueiro que o substituiu, atrasou a bola. O goleiro Bruno foi trocar passes com seus zagueiros e errou. Conclusão: a bola ficou girando dentro de suas redes.