Quantas certezas você pode deixar de ter em quinze dias? Assim foi com o fim de fevereiro e o início de março desse bissexto ano de 2024. Perdi o chão por mais de uma vez. Depois de uma série de fins de ciclos, familiares e afetivos, o Sol parecia surgir, através das frestas das nuvens cinzentas. E então, na mesma semana, anunciam a demolição imediata do Edifício São Pedro e o Mara Hope cede no banco de areia, dias antes de completar os 39 anos encalhados.
Nem mesmo o concreto dos anos 1950 do primeiro prédio à Beira Mar conseguiu resistir ao tempo e à especulação imobiliária. Tampouco, o aço do convés do meu velho amigo, Mara Hope, testemunha de tanta coisa importante na minha vida.
Tudo vira pó quando não recebe reparos. Uma hora, a erosão completa o seu papel transformador. Sete andares de concreto podem se transformar em uma montanha de poeira e entulho. As paredes, as arandelas, as banheiras, o restaurante Panela, quem se amou naquelas camas, as risadas, as lágrimas dos hóspedes e moradores. Lembranças esparsas que vão se apagando na memória.
Há mais de uma década, pouco a pouco, aquele gigante ia deixando de existir. Nas frestas e rachaduras, nasciam árvores. Virou abrigo de pessoas em situação de rua e em drogadição. Se tornou um sinônimo de descuido.
No meu imaginário, a força maior das lembranças se volta para os primeiros anos do meu filho menor, João Nuno. Quando ele nasceu, iniciamos nossos passeios com o carro recém-comprado. Foi ali que ele viu o mar pela primeira vez. Afoito, já se acostumando com a estabilidade dos pezinhos, saiu correndo direto para aquela imensidão verde azulada que olhava o Edifício São Pedro.
Nosso passeio simples era sempre o mesmo. Deixávamos o carro no estacionamento ao lado do velho edifício em ruínas, alugávamos patins, comíamos pipoca, açaí, cachorro quente e olhávamos o mar sentados na calçada do casarão que hoje é uma loja para surfistas. Fiz isso dezenas de vezes.
Alguns anos depois, eu fui agradecer pela vida e olhar meu Mara Hope de frente para o São Pedro, cercado de um multicor lindo no entardecer. Uma das tempestades tinha amainado, eu senti uma paz e uma esperança de que era o começo de um novo tempo.
Sobre o Mara Hope, para quem escrevi a carta que abre o meu livro Cidades Invisíveis, também vejo o trabalho lento da corrosão, tão comum nos relacionamentos. Aos pouquinhos, o sal do mar corrói o mais forte dos metais. A falta de zelo, aliada ao tempo, transformam tudo. Um navio encalhado, um prédio abandonado, as relações da gente, sejam de amizade ou amorosas. Para muitas situações, não há volta. O mais sensato é passar o trator por cima, esperar afundar. Não tem mais conserto.
No caso do Edifício São Pedro, desde que foi anunciado o tombamento, começou um trâmite longo, que findou por ser desfeito. Um patrimônio tombado e “destombado”. Os donos deixaram de se importar com a segurança. Foi só esperar a invasão, para que se tornasse um problema para o Poder Público. Alguém ia ter que resolver.
Tem relações, seja por preguiça ou por comodismo, que recebem esse mesmo tratamento que foi dado ao primeiro prédio com mais de três andares da orla. A gente deixa de se importar. Uma hora, alguém vai ter que resolver o impasse. Que seja o outro. Ele quem vai ficar como vilão. Na maioria das vezes, não tem jeito. A gente vai empurrando com a barriga até que alguém decida pelo fim.
No entanto, uma vez começado o processo, não tem mais volta. Pode até ser construído outro prédio melhor em cima do terreno, mais moderno. No entanto, aquele que existia deixou de ser. Será outro.
Quem irá definir o tempo de permanência do novo será o mesmo zelo, presente nos detalhes. A pintura do afeto, por dentro e por fora do edifício das relações, o óleo do desejo para lubrificar as dobradiças das portas e portões de cada encontro amoroso, o carinho e as palavras que adoçam o cotidiano. Tudo isso tão trabalhoso e necessário a todo laço e vínculo que firmamos.
Ou nos damos ao trabalho desse cuidado permanente ou um belo dia, o prédio desaba. O navio cede e afunda no oceano. E não haverá mais nada além de lembranças, quando os olhos fecharem.
