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A lição de viver sem ilusões

Levar a vida sem acreditar além do necessário. Realizar as atividades que desejamos por querer e não por ter uma fé cega de que algo vai dar certo. Aprendi essa lição durante uma temporada recente ao lado do meu pai, que mora a 300 km de mim.

Passamos muitos meses sem conversar. Não temos o hábito de falar ao telefone. A razão, eu não sei ao certo. Talvez tenha sido porque ele nunca gostou de ligações. Homem prático, prefere o olho no olho para fechar negócios e dizer as coisas que interessam. Com o passar do tempo, ficou normal nos falarmos apenas pessoalmente, uma ou duas vezes no ano e talvez com ligações rápidas nas datas comemorativas.

Com poucos encontros, eu procuro aproveitar o máximo possível dos seus ensinamentos, inclusive, quando ele não está ensinando nada, mas só vivendo sua vida.

Meu pai é um construtor, um inventor nato que não aceita que algo não pode ser resolvido. Reconstruiu a vida do zero muitas vezes, com novas profissões e novas companhias. Aos 65, ele é comerciante e aproveita o tempo livre para consertar coisas, como sempre fez. Dessa vez, encontrei três máquinas de costura que iriam para o lixo funcionando e uma nova engenhoca para descascar cana, alinhada ao motor de moer que ele criou usando rodas de bicicleta.

Conheci meu pai já consertando eletrônicos. Ele foi técnico por décadas e sempre usávamos aparelhos que ele tinha consertado. Quando fez o curso, cuidou logo de construir um rádio em cada cama. Nosso aparelho de som também era de segunda mão, assim como o vídeo cassete.

Além de gostar de consertar, ele pesca sempre que pode, só pelo prazer de apanhar os peixes, beber, conversar e comer com os amigos. Quando chega em casa, trata de distribuir com os vizinhos e com a família. Uma parte, ele também vende no mercadinho.

Essa lição que falei no início, ele deu para mim e meus filhos depois de muitos dias tentando consertar um freezer quebrado. Com ferramentas improvisadas e comprando peças novas, não quis desistir nos primeiros fracassos. E daí se as emendas quebravam e o gás vazava? Uma hora ele ia encontrar o jeito certo de consertar.

Ao observar ele sentado no chão essa semana, batendo cabeça para entender porque o freezer continuava sem prestar, pensei que era a fé que iria conseguir o que o movia nessa gana de recuperar a capacidade de gelar desse freezer. Me surpreendi quando ele disse que era por opinião e por querer fazer.

Ao contrário dele, eu já investi em projetos furados por acreditar cegamente. Relacionamentos falidos, negócios sem futuro. Eu mantinha uma ilusão de gente ingênua que uma hora as coisas iriam funcionar como eu sonhava.

Peguei para a vida de agora por diante essa lição de fazer as coisas porque quero e não por acreditar. Quando dá errado, pelo menos, a gente tem como justificar para si e para o mundo que sabia que não tinha futuro. “Eu fiz porque quis mesmo”. Parece mais maduro do que dar uma de vítima e depois dizer que foi enganado por alguém ou pela ilusão das circunstâncias.

Se eu cair, vou sacudir a poeira, levantar e mudar a rota. Tal qual meu pai. O exemplo dele toda vida me encorajou e vai continuar com essa função. Já quero ir de novo pra lá para prestar atenção e tomar meu caldo de cana com limão, o único que eu gosto, porque é ele quem faz.