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A jornada solitária para o mundo interior

Há pouco mais de um mês, comecei uma jornada para dentro. Para redescobrir as coisas que gosto e aprender a curtir minha companhia. É difícil se suportar depois de uma vida buscando o encaixe no outro.

Assim como muitas mulheres da minha geração, também fui criada em meio a príncipes, comédias românticas e a busca do casamento como o ideal supremo de sucesso. O final feliz era sempre depois que a noiva saía da festa. Eu comprei essa ideia até às últimas consequências.

Casei com quem achava que era o príncipe salvador. Tive os filhos. E o tempo me fez perceber que o conto de fadas não era bem aquilo. Desde que me divorciei, andava perdida, buscando o padrão de encaixe que tinha quando era adolescente – o tal príncipe e o grande amor que me salvariam. Depois de umas rasteiras da vida, finalmente aprendi que o príncipe não existe. Encontrar o grande amor é uma parte da vida, não o foco principal.

Sou a única companhia definitiva. Então, preciso aprender a conviver comigo. A lidar com os pensamentos intrusivos, com o tédio e a ansiedade. Isso é um processo que comecei agora. Não tem ninguém pra me salvar de nada. A laranja tá completa, não precisa de metade nenhuma. Quem vai me dar a mão vai ser imperfeito como eu sou, mas de outro jeito. Vai ter seus próprios traumas, anseios e gatilhos. Posso encontrar esse alguém amanhã ou daqui a dez anos.

A jornada principal é a minha. Eu quem protagonizo a vida que construo. Então, é hora de beber a vida em goles grandes, mas com o cuidado de não me engasgar nas expectativas. Já fiz isso e me dei mal. Tenho que ter muito claro o que não aceito.

O amor está sempre perto. Nas cabeçadas do Listrado, nos pés de jasmim amarelo dos caminhos, no cheiro bom do cangote dos meus filhos, no abraço apertado dos amigos e dos meus pais.

Não vou desistir do amor romântico, mas se ele quiser que me encontre. Enquanto isso não ocorre, prometi pra mim que vou me dar o máximo de cuidado que eu puder. Me acarinhar antes de dormir, me abraçar comigo e dizer que vai ficar tudo bem. Provar sabores novos, ir a lugares que nunca fui e sempre quis. Chorar sim, para desaguar as saudades e as frustrações.

A vida que tenho pode ser um jardim com muitas delícias. Basta que eu plante as sementes certas agora. Um dia vou colher e desfrutar de tudo que estou cultivando. Quero doçura, mas sem ilusões. Não quero ser uma mulher amarga. Meu caminho é o de ver os detalhes bonitos e de ter esperança. Estou plantando músculos bem devagar também. Sei que vou precisar deles mais na frente.

Se eu continuar plantando esses bons canteiros, sei que terei flores e frutos daqui a alguns anos. Se o amor romântico vai chegar ou não, não tenho como prever, mas que ele me encontre trabalhando nessa cura.

Terei quedas nessa caminhada. Quem não cai? No entanto, é levantar e seguir porque o tempo não volta e ainda há muita vida e bonitezas pela frente. É nisso que eu quero acreditar.