Novembro mal começa e lá vem Simone declarar que é Natal, seguido pela inquisição anual que nos assombra desde crianças: “O que você fez?”
Fazer. Está aí uma obsessão moderna: a produtividade. Estamos sempre correndo para fazer mais e melhor e, especialmente quando o calendário se aproxima de dezembro, a sensação é de que tudo precisa ser feito o mais rápido possível. Esse ritmo acelerado no qual vivemos as festas de fim de ano (e a vida, de forma geral) deixa pouco espaço para espontaneidade e diversão. E, se isso já pode ser prejudicial para nós, adultos — trazendo estresse e ansiedade —, imagine para nossas crianças.
Em 1981, no livro The Hurried Child: Growing Up Too Fast Too Soon, o psicólogo norte-americano David Elkind, professor da Universidade Tufts, introduziu o conceito da “Síndrome da Criança Apressada” (The Hurried Child Syndrome) para descrever a tendência moderna de apressar o amadurecimento das crianças, tratando-as como miniadultos e impondo-lhes pressões emocionais, acadêmicas e sociais precoces.
Já nos anos 2000, a socióloga Annette Lareau cunhou o termo ‘cultivo orquestrado’ para descrever o estilo de parentalidade típico da classe média moderna, no qual os pais planejam, supervisionam e direcionam as experiências das crianças para estimular habilidades e garantir sucesso futuro. Cada atividade é pensada para desenvolver competências específicas — cognitivas, sociais ou esportivas. Isso geralmente envolve uma agenda estruturada e cheia de compromissos, com pouco tempo livre ou de brincar espontâneo. O foco dos pais e cuidadores costuma estar no desempenho e na produtividade, e o tempo da criança é visto como um investimento — cada atividade precisa “render” algo para o futuro.
De lá para cá, com o foco em performance exacerbado pelas redes sociais, essa percepção adultocêntrica da infância está se tornando prevalente. Pais, escolas e a sociedade como um todo frequentemente exigem que as crianças aprendam cada vez mais rápido, se comportem com maturidade emocional precoce, participem de atividades estruturadas em excesso, tenham sucesso acadêmico e social muito cedo e lidem com temas e preocupações típicas da vida adulta.
O resultado disso é uma geração de crianças ansiosas, estressadas e exaustas, que perdem o tempo necessário para se desenvolver integralmente. Segundo dados divulgados pela Rede Vida, com base em registros do SUS, o número de atendimentos por transtornos de ansiedade em crianças de 10 a 14 anos cresceu 2.500% nos últimos dez anos, saltando de 1.850 registros em 2014 para mais de 24.300 casos em 2024. E, embora esses dados também reflitam uma maior conscientização por parte da população — o que implica maior procura por serviços, mudanças de critérios e acesso ampliado ao sistema de saúde —, os números são alarmantes e nos convidam a refletir sobre o custo de interromper o curso natural da infância.
A pressa com que estamos criando nossas crianças pode comprometer aspectos importantes da infância, como o brincar livre, essencial ao desenvolvimento cognitivo emocional. Ao tentar oferecer uma rotina que garanta (ou pelo menos otimize as chances de) sucesso para nossas crianças no futuro, podemos estar, na verdade, prejudicando o desenvolvimento de habilidades importantes, como a capacidade de imaginar e criar, o autoconhecimento, a autorregulação emocional e a resiliência diante das frustrações. Habilidades essas que não apenas aumentam as chances de sucesso profissional, mas também as de formar adultos bem ajustados e funcionais.
Sabemos também que muito desse ritmo acelerado é consequência das demandas que os próprios pais enfrentam — não necessariamente uma escolha deles. No entanto, entre um cenário ideal e o que nos é possível, existem pequenos ajustes que podemos fazer para desacelerar e nos conectarmos melhor com nossas crianças e com nós mesmos, não só neste fim de ano, mas durante todo o ano.
1. Diminua o ritmo
Deixe sua agenda mais leve, sempre que possível. Admita que você não precisa fazer tudo. Delegue, recuse, aceite o “bom o suficiente” no que não importa tanto. Dê a si mesmo permissão para parar.
Quando o ritmo desacelera, as crianças se sentem vistas. Sentem-se bem-vindas no seu mundo, não empurradas através dele.
2. Abra espaço para a espontaneidade
Menos controle, mais espaço para a vida acontecer.
Priorize o brincar livre, limite atividades extracurriculares estruturadas, valorize o descanso e o sono. Deixe que a criança vivencie o ócio. A lista de afazeres pode esperar; a infância, não.
3. Veja o simples como extraordinário
Pequenos rituais, por mais simples que sejam, podem trazer significado, conexão e previsibilidade para a rotina. Seja uma leitura em voz alta antes de dormir, uma noite de filme com pipoca ou um café da manhã demorado em família — esses pequenos rituais são lembretes potentes do que (e de quem!) realmente importa.
Quando o mundo lá fora exige pressa, você pode equilibrar a rotina da casa com presença.
No fim, o maior desapego não é da agenda — é da ilusão de que estar ocupado é ser bom, de que fazer rápido é produzir mais, ou de que ter muito é ser suficiente.
Quando desaceleramos, mostramos às crianças o que é viver — não apenas passar pela vida com pressa. Quando desaceleramos, damos a elas (e a nós mesmos) o espaço para crescer, respirar e simplesmente existir.
