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A guerra da vez

Era 23h45 de um domingo. No apartamento vizinho, uma mãe tentava, aos berros, obrigar os dois filhos adolescentes a largarem os smartphones e dormirem. Quase todos os dias, a mesma voz insistente – “Vocês precisam dormir, amanhã tem aula. Eu preciso dormir. Me entreguem esses celulares! Chega!” – Entre vozes chorosas, o silêncio se instala. Obedeceram.

Na minha casa, a guerra contra os aparelhos eletrônicos dos filhos também está presente todos os dias. Em uns, de forma mais amigável e silenciosa. Em outros, aos berros e ameaças também, que eu não sou de ferro. Nesse fim de semana, após muitos meses postergando, precisei tomar medidas drásticas.

O mais novo vivia se queixando que não conseguia dormir por pesadelos recorrentes com monstros. Quase todas as noites aparecia de madrugada na minha cama, com medo.

O tablet que ganhou de Natal no ano passado não aguentava esperar nem que carregasse. Entre jogos de terror, vídeos que ensinavam a jogar e sinais claros de ansiedade, decidi que era hora de se desfazer do aparelho dele. A única tela permitida voltaria a ser a televisão e, por duas horas diárias, como é a recomendação do tempo máximo para a idade dele, que tem dez anos. Foi dormir chorando com a notícia.

O irmão mais velho, adolescente, continua extremamente resistente à regra de usar por três horas o celular para entretenimento. Quer mais. Alega que precisa dialogar com os amigos, assistir as séries. Lembro do meu tempo, em que meu pai colocou uma chave no telefone para evitar excessos. É mais ou menos isso que estou tentando fazer. O jogo vira e agora, eu que sou a chata e dito as regras.

O pior nessa guerra é saber que a gente, adulto, também é dependente das tecnologias. Quem nunca ficou ansioso para continuar rolando o feed do Instagram ou perdeu a noção do tempo olhando bobagens que atire a primeira pedra.

No entanto, quem já passou dos 40, como eu, diferente da nova geração, sabe o que é viver sem celular e sem internet. Já eles não, o que causa um estrago bem pior.

A proibição do celular nas escolas foi uma ótima medida, mas os pais continuam com o desafio grande de manterem a rédea curta em casa, aos fins de semana. Isso é difícil até mesmo para quem prefere fazer um detox de telas nas folgas do trabalho. Eu continuo insistindo, assim como a vizinha, nessa guerra ingrata de regular o acesso à internet.

Entre derrotas e vitórias, noto um avanço positivo porque o meu caçula, passados alguns dias da perda do tablet, já está mais tranquilo. Dormiu dez horas seguidas no fim de semana e os monstros deram uma trégua.

O irmão também acabou aceitando que três horas é suficiente. Com ele, tudo é na base da argumentação, precisa ter lógica. Um grande desafio para a minha paciência.

Aqui, para esses assuntos mais polêmicos, procuro dar sempre 24 horas e não pensar num futuro mais distante. É um dia de cada vez. Hoje, eu venci essa batalha. Mas, amanhã recomeça tudo. O mito de Sísifo parece encaixar perfeitamente, porque toda vez que eu penso que consegui colocar a pedra no topo, caio rolando com ela. Uma hora, a gente vence esse desafio. Ou será que o meteoro chega antes?