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A grande vitória da alfabetização – e o que falta

4 em cada 10 graduados no Brasil não conseguem encontrar uma informação em um livro, mas sabem apostar em bets virtuais

Antes da pandemia, o Brasil alfabetizava 55% de suas crianças. A pandemia coincidiu com o pior governo da história democrática do Brasil e a taxa de alfabetização caiu quase vinte pontos percentuais.

No fim da pandemia e do governo Bolsonaro, alfabetizávamos pouco mais de três a cada dez crianças brasileiras na idade de alfabetização.

Hoje, esse número chegou a mais de seis a cada dez crianças. É uma vitória histórica que deveria ser comemorada com um feriado. O Dia Nacional da Criança Alfabetizada.

A guinada é especialmente marcante no nordeste brasileiro, com o Ceará marcando a pontuação mais alta e alfabetizando mais de oito a cada dez crianças, na idade correta.

Mais de 100 cidades brasileiras superaram a meta de alfabetização deste ano. Tudo indica que até 2030 teremos mais de 80% das crianças brasileiras alfabetizadas na idade certa. É um indicador que enche de esperança o coração deste professor.

Ao mesmo tempo, segundo o relatório Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, nosso país perdeu mais de seis milhões de leitores.

É a primeira vez que mais da metade da população foi identificada como “não-leitora”, pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

É impressionante constatar que, no ano da maior alfabetização infantil da história, tenhamos também o menor número de leitores.

Finalmente, se descontarmos os livros indicados por instituições, como escolas e igrejas, a média de leitura do brasileiro é de menos de um livro a cada três meses.

Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional ajudam a explicar:

Em 2024, apenas 13% dos brasileiros de qualquer idade eram considerados alfabetizados ao nível proficiente — quer dizer, capazes de ler e escrever todo tipo de texto, além de compreender e relacionar ideias complexas entre textos diferentes.

Mesmo entre as pessoas que têm Ensino Superior completo ou mais (como uma Pós-Graduação ou um Mestrado), quase 40% chegam no máximo a uma alfabetização Elementar.

Considere que a definição de uma pessoa alfabetizada ao nível Elementar é: “o indivíduo capaz de selecionar, em textos de extensão média, uma ou mais unidades de informação, em certas condições e com pequenas inferências.”

Isso significa que 4 em cada 10 graduados no Brasil não conseguem encontrar uma informação em um livro.

Houve um intervalo de seis anos entre a penúltima medida de alfabetismo funcional do Brasil, em 2018, e a mais recente, em 2024.

Pasme: O percentual de analfabetos caiu apenas 1%, mas o percentual de leitores proficientes caiu 2%: de 12 para 10. E o nível logo abaixo deste, de alfabetismo intermediário, permaneceu estável, em 25%.

Causas e consequências

Enquanto isso, o Brasil é o segundo país com o maior tempo de uso de tela do mundo, com aproximadamente nove horas diárias.

Sabemos que mais tempo em telas resulta em menos concentração, menor compreensão textual e menos tempo lendo livros. Não é possível dizer, em um cenário nacional, se essa é a maior causa do decrescimento da leitura no Brasil, mas não seria absurdo supor que fosse.

O Brasil é um país com grande uso de telas, e parte deste uso se destina a apostas em bets. Metade das famílias brasileiras está endividada e hoje a maior causa de dívidas é o uso de bets.

Apenas brasileiros alfabetizados ao nível intermediário ou mais conseguem entender o risco de uma aposta, em termos de porcentagem e probabilidade. Apenas três de cada dez brasileiros têm esse nível de alfabetismo.

O Brasil sabe ler mais do que em qualquer época da história. Agora, precisamos decidir como vamos utilizar essa conquista.

Relatórios importantes para você conhecer

As notícias e as colunas vão informar você, mas para tomar decisões, é importante conhecer os relatórios originais.

Toda a festa ao redor dos novos níveis de alfabetização de crianças no Brasil vem do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, do Inep. O resultado é publicado em boletins disponíveis no gov.br

A maior parte dos dados publicados sobre leitura de livros vem dos Retratos da Leitura no Brasil, publicados periodicamente pelo Instituto Pro-Livro. Você consegue encontrar todas as edições da pesquisa no site do Instituto.

Já os dados menos conhecidos sobre Alfabetismo Funcional vêm do Indicador de Alfabetismo Funcional, publicado desde 2007 pela ONG Ação Educativa. É possível encontrar todos os dados no site.