Um dos prazeres maiores que tenho é quando posso pagar alguém para fazer uma faxina em casa. Pode parecer uma bobagem, mas como nunca tivemos funcionários domésticos em nenhuma época, esse é um dos luxos que eu celebro com bolo caseiro e café.
Nesses vinte anos em que tenho tomado conta da minha vida, só contratei esporadicamente apenas duas diaristas. Estou formando um vínculo com a mais recente. Temos mais ou menos dois anos de relacionamento e conversamos sempre nas poucas vezes em que ela veio aqui.
Semana passada, ela passou um dia comigo e me atualizou das novidades recentes. Desde a última visita, foram seis meses, mais ou menos e, na época da faxina anterior, só estava atendendo nos fins de semana. Conseguiu um emprego formal como babá.
Dona Francisca deve ter mais de 50 anos, não sabe ler e mora com uma filha de 24 anos, que ela disse ser “especial”, por ter algum tipo de deficiência intelectual que ela não soube me dizer qual.
A moça fazia o Ensino Médio e parecia uma adolescente. Dona Francisca estava tranquila porque enquanto trabalhava o dia todo, a menina passava o dia na escola. Parecia estar tudo nos eixos e em paz.
Semana passada, ao entrar em contato para marcar o serviço, me falou que tinha deixado o emprego fixo. Disse que estava muito animada porque ia ser avó. Aos poucos, me contou que o netinho era da filha que morava com ela e como tinha se dado essa gravidez.
Um rapaz da escola se envolveu com a moça, que logo engravidou e resolveu ir morar com ele. Quando descobriu, tentou negociar com a menina para que ela não fosse. Não conseguiu. Nos três meses em que a filha da dona Francisca morou com o namorado, sofreu violência física e passou fome. Mesmo grávida. Mesmo com necessidades especiais. Ao visitá-la, depois de muito sofrimento, dona Francisca conseguiu convencer a filha a voltar pra casa.
O tal rapaz foi embora para outra cidade. Pelo que ela me disse, por retaliação, porque burlou as regras da facção do bairro em que eles moram, devido à maldade que fez com a filha da dona Francisca.
Muito serena, ela falou que a filha agora estava bem e tinha conseguido uma laqueadura para que não passasse por isso de novo.
Infelizmente, como toda vida houve, existem homens que se aproveitam do pouco poder de decisão de quem tem algum tipo de deficiência.
E assim como milhões de mulheres, a dona Francisca também não tinha rede de apoio para zelar por sua filha enquanto ela estava trabalhando fora de casa.
Acostumada com a vida difícil, ela sequer reclamou e disse que achava muito melhor a vida na informalidade. Pelo menos poderia ajudar a criar o bebê, levar para as consultas no posto. A vida continua.
Com essa conversa longa, no decorrer da limpeza da minha casa, eu me dei conta de que a vida parece ser um ciclo sem fim de histórias que se repetem. O aprendizado se dá nesse ouvir e falar, desde sempre. E pouco importa o nível de instrução, o emprego. As dificuldades perpassam gerações e nos atravessam enquanto mulheres, mães. Não sei se isso me anima ou me entristece. A vida real às vezes paralisa a gente.
