A primeira vez que eu viralizei nas redes sociais foi em maio de 2017. Eu já escrevia e publicava meus textos no Instagram havia dois anos, mas algo naquela combinação, o efeito da vulnerabilidade somado ao timing perfeito da postagem, fez com que milhões de pessoas o compartilhassem. Uma delas foi a Eliana — sim, “aquela dos dedinhos”.
Ela estava de repouso absoluto por conta dos riscos da sua segunda gestação e, coincidentemente, no meu texto eu falava justamente sobre as pausas que a maternidade impõe.
Talvez você já tenha se deparado com ele por aí, rolando pelo Facebook ou em algum grupo de WhatsApp, talvez sem autoria: “Hoje tomei meu café com lágrimas e, na minha boca, amargavam as saudades que sinto da minha mãe…” Minha mãe havia acabado de voltar ao Brasil, depois de mais uma temporada comigo em Nova York. Mais uma vez, eu me encontrava sozinha, maternando uma criança de dois anos em um país que não era o meu, com pouco suporte.
Era uma terça-feira da semana do Dia das Mães; eu a havia deixado no aeroporto na noite anterior e acordava sem um adulto para conversar enquanto tomava meu café. Lembro de pensar que deveríamos ter trocado a data da passagem para que ela pudesse passar o Dia das Mães comigo, mas hoje acho que isso foi uma ajudinha do destino — sábio destino que, vira e mexe, usa as mães como instrumento para nos colocar no caminho certo. Se aquele texto não tivesse sido publicado justamente na semana em que a internet inteira fala sobre mães, talvez ele nunca tivesse viralizado.
O texto acabou sendo reproduzido por grandes publicações, como a Vogue Brasil, e me trouxe milhares de novos seguidores. Com eles, vieram também muitas críticas. Fui acusada de romantizar a maternidade por um podcast famoso, quando, na verdade, eu apenas apontava um fato: a maternidade exige pausas. Hoje, quase uma década depois, e com a chegada de mais duas filhas, ainda acredito no que escrevi. Não conheço uma única mãe, por mais apoio que tenha, por mais participativo que seja o pai, que não tenha pausado pelos filhos. Nenhuma mãe que eu conheço se sente absolutamente em paz com o esforço constante de equilibrar carreira e maternidade.
Escrevo esta coluna com meus três filhos em casa, porque é feriado escolar. As duas mais novas estão doentes e a caçula, que só tem dois anos, pediu colo antes que eu começasse este parágrafo. O pai trabalha fora, enquanto eu empreendo de casa. Eu não romantizo essa dinâmica — é o que é —, mas também não demonizo a maternidade. Há, sim, algo de bonito na entrega e nas pausas que fortalecem o vínculo com nossos filhos.
Ainda assim, com frequência, eu fantasio sobre como seria ter um “teto todo meu”. Como seria sentar-me com uma xícara de café ainda quente e trabalhar em silêncio, sem interrupções? Mas então Charles Bukowski me vem à mente: “E quando ninguém te acorda de manhã, e quando ninguém te espera à noite, e quando você pode fazer o que quiser — como você chama isso: liberdade ou solidão?”
Estreio, então, esta coluna no Opinião, fervilhando nessa dualidade. Iniciando mais um projeto que alimenta, ao mesmo tempo, a paixão da mulher e a insegurança da mãe. Será que vou dar conta? A pergunta que assombra toda mãe. E a resposta é uma construção diária, erguida com coragem — do tipo que só se tem quando se é mãe.
