Domingo é dia de dar uma passada no supermercado. Geralmente, vou no fim da tarde e não trago tanta coisa porque moro no terceiro andar e no meu prédio não tem elevador. No entanto, às vezes, a vontade de aproveitar as promoções me faz esquecer que vou ter que carregar muito peso sozinha.
Nesse domingo em específico, o sabão líquido e o amaciante estavam com preços irresistíveis, precisei comprar. Ao segurar as sacolas, vi que seria impossível levar a pé e decidi pegar um carro por aplicativo, mesmo morando do lado do supermercado. Afinal, 600 metros segurando mais de seis quilos em cada braço é muita coisa.
O motorista era um senhor já pelos seus 60 anos e assim que saímos do estacionamento, ele já falou que era a primeira vez que estava retomando os trabalhos com o aplicativo porque tinha perdido a esposa há 15 dias.
Notei que queria conversar e fui deixando o diálogo fluir. No curto percurso de talvez uns 15 minutos entre o supermercado e a minha casa, ele me contou sobre como tinha se dado o falecimento.
Por ter sido fumante por muitos anos, a esposa, que se chamava dona Lúcia, desenvolveu uma cardiopatia crônica e não poderia fazer um transplante porque tinha muitas comorbidades. O médico chegou a dizer que ela sobreviveria apenas seis meses de vida. No entanto, ainda viveu dez anos e intensamente. Seu Iran, que era o nome do motorista, contou que, ao saber desse diagnóstico, ela passou a fazer tudo que tinha adiado. Viajaram juntos, reuniram a família em torno de todas as comemorações, colocaram a vida em ordem, porque não sabiam por quanto tempo ela ainda estaria por aqui.
Juntos, os dois tiveram quatro filhos e ela ainda terminou de criar os outros três que seu Iran trouxe do primeiro casamento. Montaram uma confecção, hoje administrada por um dos filhos e viviam de forma confortável.
Quando passaram os seis meses, seu Iran e dona Lúcia continuaram a viver intensamente e parecia que não havia mais um ultimato. Até que ela perdeu a mãe e uma irmã. Esses fatos abalaram a sua saúde já fragil. A gota d’água foi um AVC.
Mesmo visivelmente abalado, seu Iran não chorou ao contar isso. Apesar da tristeza e da falta que ela fazia, não conseguia se entregar ao choro porque ela não gostaria disso. “A Lúcia era uma mulher muito dinâmica, estava sempre alegre. Pra ela, não bastava ser modelista, cuidar da família, ainda tinha a paixão pelo Ceará. Foi a primeira fundadora de torcida feminina do time, que era uma de suas paixões”, ele disse já chegando na minha portaria e mostrando o vídeo que foi exibido no estádio quando ela partiu.
Cheio de planos, ele contou que vai fazer um projeto social de ajuda aos idosos com o nome da esposa. Em vida, ela sempre gostava de ser solidária a quem queria largar os vícios, seja álcool ou outras drogas. Os dois costumavam estender a mão a quem pedia ajuda com essas questões. Viram muitas pessoas mudando de vida nesses 39 anos de casados.
Depois que tirei as sacolas do carro, nesse percurso que eu jamais tinha feito antes num carro por aplicativo, por ser muito perto, pensei no presente que foi ouvir essa história de amor e superação. Às vezes, as crônicas chegam assim, inesperadas, mas prontas. A vida acontecendo segue sendo uma das fontes de inspiração mais ricas.
