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A beleza do amanhecer

* A gravura em monotipia “Janela ao Espaço” é de autoria do artista plástico autodidata cearense João Paulo José da Silva. Historiador, trabalha com as linguagens artísticas da xilogravura, monotipia, pintura e escultura em madeira. No Instagram, publica no perfil @jp.artesubjetiva

Quantas vezes eu pude contemplar o nascer do Sol? Como foram poucas, consigo lembrar da maioria. Não costumo acordar de madrugada. Quando posso, desperto tarde mesmo. Amo dormir. Então, não é algo costumeiro, mas especial.

Fechando os olhos, eu me recordo da época em que o amanhecer pintava o céu de roxo com vermelho escuro e parecia que o mundo estava se acabando. Eram os tempos do confinamento da pandemia e eu chamava meu caçula para ver aquela belezura comigo. Pena que era só a poluição que mudava as cores. 

Mais de uma década antes, eu via o sol nascendo já chegando no bairro Antônio Bezerra, quando o horário de verão era aplicado aqui no Ceará. Isso aconteceu pouquíssimas vezes. Nessa época, aprendi a acordar ainda de noite. Eu era adolescente e só Deus sabe o sacrifício que eu fazia para me manter de pé. Um banho bem gelado era indispensável para isso. No entanto, bastava eu encostar no ombro do meu pai dentro do ônibus da Empresa Vitória indo para a escola, que logo eu dormia de novo.

Em São Paulo, poucos dias depois da virada do milênio, passei uma madrugada inteira conversando com o vizinho da minha prima sobre todo tipo de assunto. Era a véspera de eu voltar pra casa de uma viagem de dois meses. Essa longa conversa, temperada com alguns beijos, mudou tudo o que eu tinha decidido para a volta e atrasou por mais de um ano que eu reatasse com um dos meus amores mais duradouros. Nunca mais soube dessa criatura. Como teria sido a minha vida se em vez de eu conversar com ele, eu tivesse virado a cara? Não tenho ideia.

Com outro, porque eu estranhei a casa diferente, eu vi o sol nascer três vezes. A janela daquele quarto ficava de frente para o sol e não tinha cortina. Tentei dormir de rede e o sol esquentou o meu rosto. Ele acordava antes dos passarinhos e vinha me chamar com um monte de cheiro no cangote para tomar café. Por causa disso, via todas as cores das nuvens, sempre diferentes. Acordava suspirando, cheia de arrepios. O sorriso largo. 

Com meus meninos recém-nascidos, o meu cansaço era tão grande que, quando o sol aparecia antes de eles finalmente dormirem, eu não conseguia ter paciência para contemplar nada. Às vezes, a vontade era correr doida. O zumbido no ouvido era um dos sinais mais pesados dessa exaustão.

No entanto, o meu amanhecer mais marcante ainda continua sendo o do dia mais feliz que eu tive até hoje, quando vi o sol nascendo por trás da finada duna do por-do-sol, em Jeri, enquanto a lua se punha no mar. 

Quantas auroras eu ainda terei para contemplar? Eu continuo dividida entre acordar cedo e dormir até cansar. Mas vamos com calma. Ainda tenho uma lista de coisas legais para fazer pela primeira vez. Amanhecer de novo de frente para o mar, hospedada ou acampando, é uma delas. E vamos em frente.