Esse domingo (20), Preta Gil partiu, aos 50 anos. Conheço poucas canções dela. No entanto, a sua vontade de viver era algo que transbordava e isso me marcou. Preta lutou pela vida com tudo que podia. Até quando foi desenganada pelos médicos, continuou em busca da remissão.
Fez o tratamento vivendo, sorrindo, cantando, encontrando os amigos, indo à praia. O seu entusiasmo pela vida estava em seus olhos, bem antes de adoecer. Colocou o seu corpo a serviço da liberdade, para que as mulheres pudessem usar as roupas que quisessem. Isso mais de uma década antes de existir uma moda plus size. Em um tempo que ser gordo era sinônimo de piada em rede nacional, nos programas de humor da televisão.
“Eu não tenho vergonha das minhas cicatrizes”, disse em uma entrevista, depois de ter sido criticada por usar biquíni após as cirurgias e mostrar as marcas que adquiriu depois da doença.
Durante o período de mais fragilidade, se divorciou e, depois, soube da traição do ex-marido, algo infelizmente bem comum. As mulheres costumam ficar até o fim do tratamento dos parceiros. Já muitos homens traem, abandonam e seguem com a vida deles.
Conheci muitas mulheres lutando pela remissão. Algumas se foram, mas não sem antes deixarem suas marcas. Uma delas, Edi, era amiga da minha mãe por décadas. Estivemos com ela uma semana antes de ela partir e esbanjava alegria, mesmo debilitada. Adoeceu desse mal duas vezes. Na segunda, teve metástase. Antes disso, criou seu filho e o filho da irmã sozinha. O sobrinho ficou órfão porque a mãe partiu doente do mesmo mal. O pai dele era meu tio, mas nunca assumiu os cuidados com o filho. A Edi sustentou os dois fazendo faxina. Foi fiel ao que acreditava até o final.
Ver mulheres antes dos 50 enfrentando essas lutas tem sido cada vez mais comum. Isso me dá um certo temor. Mas, assim como elas, eu quero estar bem viva quando a morte vier me buscar. Essa fome de experimentar o novo e continuar, eu pretendo manter.
Também perdi o medo de expor minhas cicatrizes, sejam as emocionais ou as físicas. Passei por duas cesarianas, sou uma mulher acima do peso e trago no corpo as marcas de ter gerado duas vidas. Estrias, linhas de expressão e sardas fazem parte de quem eu sou hoje. E isso me conecta mais com as outras mulheres do que me distancia.
Nunca esqueci da sensação de vestir um biquíni de novo depois de 20 anos. Eu me escondia por vergonha do corpo e de quem eu tinha me tornado. E Preta Gil esteve abrindo esses caminhos para mim e para tantas outras mulheres, desde antes que tivéssemos influencers plus size ou uma moda que valorizasse os corpos com tamanhos acima do 44.
Com a Edi, eu aprendi a dignidade de se reinventar e seguir em frente para criar meus filhos, com fé em Deus e sorrindo até onde der. E com a Preta Gil, peguei o ensinamento de não esconder minhas cicatrizes ou o meu corpo por eu estar fora dos padrões. Vou continuar seguindo o que me faz sentir viva. Que Deus a tenha em um bom lugar, amém!
