Menu

Naylla e a vida em um dos estados que mais matam trans e travestis no Brasil

Ceará e Minas Gerais foram os estados que mais registraram assassinatos contra pessoas trans em 2025
A estilista e designer Naylla Costa critica a falta de Muito pouco se fala em educação civil. Muito pouco se fala em valorização profissional do estado. Foto: Arquivo pessoal

O Ceará permanece entre os estados brasileiros com maiores índices de assassinatos de pessoas trans e travestis. A informação consta na nona edição do dossiê elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

De acordo com o levantamento, o Ceará e Minas Gerais foram os estados que mais registraram assassinatos contra pessoas trans em 2025, com oito mortes em cada unidade federativa. A Região Nordeste concentrou o maior número de casos no país, com 38 registros de mortes.

Os números refletem um cenário marcado por violência, preconceito e exclusão social. Para especialistas e integrantes da comunidade, a realidade vai além das estatísticas e revela trajetórias atravessadas pela falta de oportunidades e pela ausência de políticas públicas estruturantes.

A estilista e designer Naylla Aguiar Costa, 27 anos, travesti nascida em Massapê, no interior do Ceará, afirma que os dados refletem experiências vividas cotidianamente por pessoas trans e travestis.

Segundo ela, desde a infância já demonstrava “intimidade com o feminino”, embora por muitos anos isso tenha sido expresso apenas por meio de adereços, roupas e acessórios. “Somente aos 18 anos me entendi como travesti, e aí começou o processo de me encontrar comigo mesma”, relata.

Antes de consolidar carreira na moda, Naylla chegou a disputar um cargo eletivo. Em 2020, ela foi candidata a vereadora. A experiência trouxe visibilidade, mas também conflitos e episódios de preconceito.

“Nesse período fui muito incompreendida. Muitos preconceitos e conflitos internos me fizeram decidir buscar o que eu sempre quis, que era trabalhar com moda, com pessoas, com movimento”, afirma.

A partir da decisão, ela passou a investir em formação na área, com cursos de figurino, costura, corte e design.

Empreender sendo travesti

No mercado de trabalho, Naylla afirma que a discriminação assume diferentes formas. Segundo ela, conquistar espaço profissional exige um esforço ainda maior para pessoas trans. “Ser travesti e empreendedora no Brasil é quase impossível. A confiança do mercado, do cliente, é algo que requer muito mais que esforço”, diz.

Ela explica que desafios como formação profissional e construção de redes de contato também são ampliados pela transfobia estrutural.

Apesar das dificuldades, Naylla destaca o apoio afetivo da família como um fator importante em sua trajetória. “Sou privilegiada de ter uma base que não me apoia financeiramente, mas que me ama e que me fortalece sempre que tenho uma nova ideia”, afirma.

O preconceito, no entanto, não se limita ao ambiente profissional. Segundo ela, a discriminação aparece também em interações cotidianas. “Em todos os lugares sinto os olhares, o tratamento. Meu bairro faz parte desse Estado que carrega consigo os altos índices de mortalidade por preconceitos”, relata.

Para a estilista, a violência começa antes de se tornar estatística e se manifesta em exclusões diárias e processos de desumanização. Ela também aponta que o preconceito pode ocorrer inclusive dentro da própria comunidade LGBTQIA+.

“Não me sinto mais ou menos confortável com a comunidade LGBT. Trato pessoas como seres humanos, independente de cor, raça ou gênero. No entanto, dentro da comunidade não estou livre de preconceitos”, afirma.

Segurança pública e lacunas

O debate sobre a violência contra pessoas trans e travestis também envolve a atuação do poder público. Naylla reconhece que o Ceará tem ampliado investimentos na área de segurança, mas questiona a forma como esses recursos são aplicados.

“O Estado do Ceará tem se destacado pelos altos índices de investimento na segurança pública, porém os especialistas só adicionaram à lista de compras orçamento para armas, viaturas, munições e infraestrutura. Muito pouco se fala em educação civil, valorização profissional e ressocialização”, critica.

Para ela, o enfrentamento da violência precisa ir além do endurecimento penal. “A lei não precisa ser somente rígida a quem convém, ela precisa ser dura e eficaz para quem dela precise”, afirma.

Dados do Governo do Ceará

O Opinião CE entrou em contato com a Assessoria de Comunicação da Secretaria da Diversidade do Ceará para obter informações sobre políticas específicas de combate à violência contra pessoas trans e travestis e dados atualizados sobre o cenário no Estado. Até o fechamento desta matéria, a secretaria não havia apresentado informações detalhadas sobre o tema.

Em fevereiro deste ano, a Secretaria da Diversidade do Ceará divulgou, no entanto, dados que apontam redução de 43% nos crimes de morte contra pessoas LGBTI+ em 2025, quando comparado a 2023.

Segundo o levantamento, foram registrados 26 Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs) contra pessoas LGBTI+ em 2025. Em 2024, o número foi de 34 casos, enquanto em 2023 foram contabilizados 46 registros.

Os dados estão disponíveis no Painel Dinâmico de Monitoramento da Violência LGBTFóbica do Ceará.

A secretaria destaca que o aumento no número de denúncias não significa necessariamente crescimento da violência, mas sim maior confiança nos canais institucionais e redução da subnotificação.

De acordo com o Governo do Estado, a redução nos registros de mortes também ocorre após a criação, em 2023, da Secretaria da Diversidade (Sediv) e da Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual (Decrin), vinculada à Polícia Civil.

À época, a secretária da Diversidade do Ceará, Mitchelle Meira, afirmou que os dados indicam avanços no enfrentamento à violência.

“Os dados mostram que enfrentar a LGBTfobia com seriedade, transparência e políticas públicas integradas salva vidas. A redução de 43% nos assassinatos de pessoas LGBTI+ no Ceará é resultado direto de uma gestão que investe em informação qualificada, articulação institucional e presença nos territórios”, declarou.

Educação como ponto de partida

Para Naylla, o enfrentamento à violência passa principalmente pela educação. Segundo ela, combater o preconceito desde a formação escolar é essencial para construir uma sociedade mais inclusiva. “É vencer o preconceito nas salas de aula. É educar crianças e jovens para o respeito mútuo”, defende.

Ela acredita que ambientes escolares mais acolhedores podem contribuir para que pessoas trans e travestis desenvolvam suas habilidades e construam trajetórias profissionais dignas.

“Receber pessoas trans e travesti, receber afeminado, acolher, educar e permitir que esse ser possa encontrar suas habilidades profissionais. E não mecanizar um monte de robô humano sem ética ou moral”, afirma.

Enquanto políticas estruturantes não avançam de forma mais ampla, o Ceará continua convivendo com um paradoxo: aumento de investimentos em segurança pública e, ao mesmo tempo, a permanência de um cenário que mantém pessoas trans e travestis entre os grupos mais vulneráveis à violência letal no Estado.