Menu

Dois PMs vão a Júri Popular na quinta fase do julgamento da Chacina do Curió

Quinta fase do julgamento da Chacina do Curió leva dois PMs ao banco dos réus por participação direta nas mortes
Policiais são acusados de executar parte dos crimes que deixaram 11 mortos em 2015, na Grande Messejana. Foto: Reprodução/MPCE

Começou nesta segunda-feira (22/09), no Fórum Clóvis Beviláqua, em Fortaleza, a quinta fase dos julgamentos da Chacina do Curió.

Dois policiais militares, Marcílio Costa de Andrade e Luciano Breno Freitas Martiniano, foram levados a Júri Popular sob a acusação de serem executores diretos dos crimes que resultaram na morte de 11 pessoas, em novembro de 2015, nos bairros da Grande Messejana.

Segundo a denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE), os réus estavam de folga, à paisana, e se juntaram a outros policiais para vingar a morte do PM Valtemberg Chaves Serpa, assassinado horas antes em um latrocínio.

Provas periciais e testemunhas apontam que a arma de Marcílio foi usada em uma das execuções e que o veículo de Luciano Breno circulou pelas áreas dos crimes, com a placa adulterada.

De acordo com os memoriais do MP, os dois se integraram ao grupo de 18 policiais que, naquela noite, percorreram os bairros Curió, Lagoa Redonda e São Miguel, organizando-se em comboios de veículos.

Testemunhas relataram que os acusados usavam coletes da PM, radiocomunicadores e armas de fogo, identificando-se como policiais enquanto realizavam abordagens.

Laudos confirmam ainda que placas de veículos foram adulteradas na base do programa Crack é Possível Vencer (CEPV), usado como ponto de encontro pelo grupo.

A investigação também vincula Marcílio Costa a crimes anteriores, incluindo homicídios motivados por conflitos pessoais, utilizando a mesma arma periciada na chacina.

Já em relação a Luciano Breno, o Ministério Público sustenta que sua participação foi “penalmente relevante”, inserida em um plano criminoso coletivo, marcado por múltiplos homicídios, tentativas de homicídio e torturas.

A Chacina do Curió deixou 11 mortos e várias vítimas feridas, em uma sucessão de ataques ocorridos em ruas, residências e estabelecimentos comerciais na madrugada de 11 para 12 de novembro de 2015.

A denúncia do MP aponta que as vítimas foram escolhidas aleatoriamente como parte da retaliação.

O caso gerou forte comoção e até hoje mobiliza esforços do Judiciário e da sociedade civil em busca de responsabilização.

Até o momento, 27 policiais militares já foram julgados em diferentes fases do processo, com condenações e absolvições.

A denúncia inicial, apresentada em 2016, responsabilizava 45 PMs.

As acusações incluem 11 homicídios duplamente qualificados, três tentativas de homicídio e crimes de tortura.

A expectativa é de que a atual fase do julgamento traga novos desdobramentos sobre a participação direta dos acusados, considerados peças-chave na execução dos crimes.

RELEMBRE O CASO:

A Chacina do Curió, ocorrida entre a noite de 11 e a madrugada de 12 de novembro de 2015, deixou 11 mortos e diversos sobreviventes em bairros da Grande Messejana, em Fortaleza.

O episódio foi marcado por execuções sumárias, torturas e abordagens violentas feitas por grupos de homens encapuzados e armados, identificados posteriormente como policiais militares de folga.

A sequência de crimes começou com tentativas de fazer justiça, quando sobreviventes foram perseguidos, baleados ou submetidos a tortura psicológica para revelar supostos envolvidos na morte do policial Valtemberg Chaves Serpa, assassinado horas antes.

Testemunhas relataram que os grupos se organizaram em comboios, com veículos adulterados e coletes da Polícia, atuando como se fosse uma operação oficial.

Em poucos minutos, os ataques se espalharam pelos bairros Curió, Lagoa Redonda e São Miguel, resultando em uma sucessão de mortes.

Quatro jovens foram executados à queima-roupa na Rua Lucimar de Oliveira; outro foi retirado de dentro de um ônibus e assassinado diante da namorada; dois rapazes foram executados em frente de casa, enquanto usavam a internet da rua; e comerciantes e moradores foram mortos em seus próprios estabelecimentos e residências, alguns na frente de familiares e crianças.

Ao todo, foram contabilizados nove episódios, com homicídios, tentativas de homicídio e atos de tortura.

Diversas vítimas foram socorridas por vizinhos e parentes, já que viaturas acionadas pelo Ciops não responderam aos chamados e, em alguns casos, ambulâncias chegaram antes da polícia.

Depoimentos de testemunhas revelaram ainda frases de deboche ditas por PMs, como:

menos dois para dar trabalho para a Polícia.

O resultado foi uma das maiores chacinas da história do Ceará, caracterizada pelo massacre das vítimas e pela sensação de impunidade dos executores, que atuaram em diferentes pontos da cidade, em sincronia, e deixaram um rastro de medo, violência e indignação.