O diretor executivo da Associação Caatinga, Daniel Fernandes, destacou, em entrevista exclusiva ao Opinião CE durante a COP30, realizada em Belém, no Pará, o papel do bioma no enfrentamento da crise climática e apontou que a Caatinga tem potencial estratégico para a geração de créditos de carbono, um dos temas centrais das negociações internacionais sobre clima.
O diretor defende que a Caatinga esteja no mapa global do clima, evidenciando seu potencial de contribuir com as metas de descarbonização e de transição justa para uma economia verde. “Não há transição climática justa sem reconhecer o papel da Caatinga. O bioma é parte da solução global para o aquecimento do planeta”, concluiu Fernandes.
Segundo Fernandes, estudos recentes reforçam que o bioma, apesar de ocupar apenas cerca de 11,5% do território nacional, responde por quase metade do sequestro de carbono realizado no Brasil entre 2015 e 2022. A pesquisa, conduzida pela Unesco em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp), demonstra que manter a Caatinga em pé é fundamental não apenas para o equilíbrio ambiental, mas também para a economia verde.
“A floresta da Caatinga em pé tem um papel crucial na mitigação dos efeitos do aquecimento global. Isso mostra o quanto esse bioma pode contribuir para a reversão do quadro climático atual e, ao mesmo tempo, se tornar uma importante fonte de geração de créditos de carbono”, afirmou o coordenador.

Financiamento internacional
A valorização da Caatinga, segundo ele, depende de financiamento internacional e de políticas públicas que incentivem projetos de conservação e restauração ambiental no semiárido. Para Fernandes, é preciso que os países desenvolvidos cumpram os compromissos de apoiar financeiramente as nações em desenvolvimento, criando condições para transformar a proteção ambiental em oportunidade econômica.
“Os países desenvolvidos precisam financiar países em desenvolvimento para que a gente tenha mais políticas públicas e mais projetos socioambientais relacionados à conservação dos recursos naturais e à recuperação dos ecossistemas”, defendeu.
A degradação da Caatinga, no entanto, avança em ritmo acelerado. Conforme dados da Associação Caatinga, o bioma já perdeu quase 50% da cobertura vegetal original, e 13% do território está em estágio avançado de desertificação. Esse processo reduz o potencial de sequestro de carbono e amplia os impactos climáticos e sociais no Nordeste.
Fernandes reforça que comunidades tradicionais, quilombolas, indígenas e sertanejas devem ter papel de protagonismo na implementação de iniciativas de restauração e no manejo sustentável, garantindo que os benefícios da economia de baixo carbono cheguem também às populações locais. “Essas comunidades conhecem o território, vivem dele e podem ser grandes aliadas na conservação da natureza e na geração de renda por meio dos créditos de carbono”, acrescentou.

