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25 de julho de 2024

A praia de Iracema dos meus amores

*Esse texto faz parte do livro Cidades Invisíveis, publicado pela autora em 2021 e que permanece à venda por meio do instagram @eukellygarcia. Ilustração foi feita especialmente para a obra pelo artista plástico cearense Vando Figueiredo.

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Conheço pouquíssimas pessoas que não tenham pelo menos uma história de amor com a Praia de Iracema como um dos cenários marcantes. Eu tinha um velho hábito de apresentar cada um dos meus afetos à Ponte Metálica, a que ainda hoje está em reforma. Ela parecia assentir, aprovar com a espuma dos seus verdes mares bravios, suas ondas de ressaca que já derrubaram tantas bangalôs imponentes e barracos simples, após a construção do Porto do Mucuripe, nos anos 1940. Ainda hoje, suas ondas continuam esse trabalho contínuo, de tentar atravessar a barreira das pedras, de quando em quando substituídas, ali onde era o antigo Restaurante Sobre o Mar de Iracema. Apenas observar em janeiro e agosto, nos tempos em que suas ondas crescem e têm mais força.

Sei que já foi Praia do Peixe, por ser centro de venda dos pescados. A nova denominação, bem mais poética, veio em 1925 por meio de intelectuais, como Demócrito Rocha e Henriqueta Galeno, entre outros, que realmente achavam que o nome não tinha a merecida denominação e decidiram homenagear José de Alencar que, alguns anos depois, em 1929, completaria o seu centenário. Pouco depois, chegaram os primeiros ricos, para construir seus bangalôs de veraneio e também a linha de bonde. Para combinar com a índia Iracema, as ruas passam a ter nomes de tribos indígenas. Alguns poucos ainda permanecem de pé. Um dos mais recentes a ser derrubado foi o Boteco, pertinho do espigão da Avenida Rui Barbosa.

O primeiro de todos os bangalôs, dos anos 1920, a Vila Morena, já foi o Estoril, um dos mais longevos bares que reuniam a boemia e, antes, era o cenário dos encontros entre as moças da sociedade e os soldados Norte Americanos, na época da guerra. As cearenses que caíam nos encantos dos americanos e ficavam faladas eram as Coca-Colas, que até viraram cordão de carnaval por puro deboche depois. Apesar de passar em frente nas minhas visitas poucas à Ponte Metálica, que na verdade é a Ponte dos Ingleses, só fui conhecer mesmo quando já era repórter em uma das muitas tardes de sábado, para cobrir um baile de Carnaval infantil e ver um dos entardeceres mais lindos da minha vida, ali de frente às pedras.

Por aquelas pedras já tinha andado antes, em uma das tentativas de requalificação da Praia de Iracema, tentando tomar ares novos e maresia, grávida de quase oito meses do primeiro filho. Foi curioso ver que até os gatos gostavam de olhar o mar verde esmeralda e comer suas caças ali em frente.

Quando o porto do Mucuripe foi construído, muitas edificações foram levadas pela maré. E o bairro começou a ter mais restaurantes e a se firmar como área de lazer. Em um desses restaurantes, a sociedade marcava ponto – o Lido, que tinha donos franceses. Foi lá que a lagosta passou a ser prato de rico e onde nasceu uma das invenções mais cearenses que conheço: o peixe à delícia.

Conversando com uma das frequentadores, Irene Mota, ela se recordou que o dono fazia até mesmo passeios de barco com clientes selecionados. Em um desses, reunindo algumas pessoas da sociedade, muitos não se deram bem com o balanço e passaram mal. Eu também passaria. O mar sempre me embebeda e dá enxaquecas terríveis.

Outro que marcou época foi o Panela, no Edifício San Pedro, gigante que virou poeira recentemente. Nonato Luiz era um dos músicos que por lá faziam suas apresentações. O restaurante famoso fechou suas portas, o prédio ainda funcionou como residência por alguns anos. Já o Lido foi derrubado e construíram um edifício em seu lugar.

Não alcancei o auge de nenhum desses dois, só acompanhei pelas lembranças dos outros, como as que vi no blog Fortaleza Nobre e nas poucas conversas com a dona Irene. No meu tempo, o que havia de mais refinado era mesmo o Sobre o Mar de Iracema. Quantas vezes não sonhei em conhecer suas iguarias, ali de frente para o mar, em tempo de cair por cima daquelas ondas.

Outro que não cheguei a conhecer, mesmo com toda a propaganda das pessoas, foi o Cais Bar. Meus tempos de rebeldia me levaram para lugares menos boêmios. Minha cena era mais underground. Eram os covers do Nirvana, do Guns, do Led e do Queen, ali na José Avelino, onde dantes andou o bonde. Tinha festa pra todos os gostos musicais. Reggae, rock, música eletrônica, samba. Os Sabores eram deliciosos também. Nunca esqueci as sangrias, pizzas e chops de vinho do Amici´s. A saudade permanece.

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