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18 de julho de 2024

A dinâmica de viver a bicicleta em uma Fortaleza mais pedalável

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Com verba do Zona Azul destinada à manutenção e expansão da malha cicloviária, capital cearense acumula ganhos a quem pedala e sensação de mais qualidade de vida

Felipe Alves, engenheiro civil, ciclista e colunista do OPINIÃO CE (Foto: Natinho Rodrigues)

Quem circula pelas ruas e avenidas de Fortaleza, já se deparou, por vezes, na hora de estacionar, com as vagas delimitadas com o Zona Azul. São mais 6.100 vagas distribuídas por vários bairros da Capital e que, atualmente, conta com mais de 260 mil usuários cadastrados.

Cada pessoa que utiliza do equipamento, paga um valor a partir de R$ 2. Mas aonde vai esse dinheiro arrecadado? Segundo a Prefeitura de Fortaleza, em nota ao OPINIÃO CE, todo o recurso do serviço é destinado à manutenção e expansão das ciclofaixas e ciclovias da Cidade, que conta com 410 km de infraestrutura cicloviária distribuídas nas 12 Regionais.

O valor total arrecadado pela Prefeitura, na atual gestão, não foi divulgado. Nos últimos dez anos, a mudança em Fortaleza é notável quando se fala de mobilidade urbana. De fato, nota-se mais ciclistas e malhas cicloviárias, principalmente nas periferias. A mudança também vem ocorrendo no Centro e em bairros vizinhos, como Benfica, Damas e Montese.

O servidor público da Universidade Federal do Ceará (UFC), Murilo Viana, tem 31 anos e mora em Fortaleza há dez. Na Capital, o ciclista usa bicicleta há sete anos e tem notado a diferença na estrutura e na sua saúde, física e mental.

“Acho que a malha cicloviária avançou muito. Utilizo a bike para trabalhar todos os dias. São oito km por dia. É o meu principal meio de transporte. Eu me estresso muito menos andando de bicicleta que de carro. Desde que comecei a ser ciclista, minha vida melhorou muito. Não preciso mais me estressar em ônibus, além de ser uma atividade física.”

Em relação à qualidade da estrutura e implantação de novas ciclofaixas, o servidor acredita que a Prefeitura precisa fazer estudos constantes para expandir a malha, principalmente em avenidas grandes.

“Na avenida 13 de maio, por exemplo, não existe ciclofaixa. É uma avenida que considero grande e importante. Existem vias importantes de Fortaleza que ainda não tem e não prioriza o ciclista”, avalia. Para a fotógrafa e designer Micaela Menezes, de 31 anos, ser ciclista em Fortaleza a fez ressignificar o uso do modo de deslocamento para o trabalho e para a saúde mental, uma vez que o estresse e cansaço de pegar vários ônibus não estavam mais acontecendo.

“Ressignifiquei a importância da bicicleta, utilizando como meio de trabalho por meio de entregas que fazia ou de deslocamento principal após a reabertura. A bicicleta acabou me mostrando muito mais vantagens do que somente o exercício físico em si, me permitindo economizar com transporte e trazendo um maior bem-estar para minha mente.”

Além da bike própria, a fotógrafa também utiliza o Bicicletar para resolver pendências mais urgentes de seu cotidiano, mas faz ressalva ao serviço. “Utilizo o Bicicletar desde o início do projeto. Adoro quando acrescentam mais pontos. Diversas vezes já deixei de fazer viagens pelo Bicicletar porque todas bicicletas disponíveis estavam com algum tipo de defeito.”

MANUTENÇÃO É IMPORTANTE
Na visão do ciclista e engenheiro civil Felipe Alves, de 40 anos, – também colunista do GRUPO OPINIÃO CE, além de consertar bikes danificadas, é necessário expandir o sistema de bicicletas compartilhadas para todos os bairros, ter mais locais para estacionar bicicletas e promover uma maior integração entre bicicleta e transporte coletivo.

“Atualmente, não existe bicicletário em nenhuma estação de metrô e nem é possível embarcar nos trens com a bicicleta, mesmo nos dias e horários que tem menos passageiros.”

Em São Paulo e Brasília, por exemplo, o transporte de bicicleta em metrôs é permitido. Neste ano, a Prefeitura tem registrado, em média, 3.212 viagens diárias do Bicicletar, chegando neste mês ao marco de 400 mil viagens, representando um aumento de 54% nas viagens no primeiro trimestre de 2022, em relação ao mesmo período do ano passado. O número de cadastros mais que dobrou se comparado aos meses de janeiro a março de 2021, apontando um acréscimo de 136%.

Em 2021, o sistema também registrou aumento de usuários e viagens. O ano teve acréscimo de 85% nas viagens e 55% nos cadastros em relação ao ano anterior, batendo recorde desde o início da sua operação, em 2014. A maioria dessas viagens foi realizada por pessoas que se identificavam com o gênero masculino, representando 63,5% dos usuários.

No total, no ano passado, 688.896 viagens foram feitas por esse público. O número de mulheres usuárias do sistema de bicicletas compartilhadas também aumentou. Em 2020, o público feminino realizou 202.091 viagens. Em 2021, esse número saltou para 396.078, representando 36,5%.

“FALTA DE EDUCAÇÃO NO TRÂNSITO É CONSTANTE”
Um dos maiores problemas quando se fala de mobilidade urbana em Fortaleza é a educação dos condutores de veículos motorizados, afirmam os ciclistas ouvidos pela reportagem. Cicloativista e cirurgiã-dentista, Luísa Pinheiro, de 42 anos, pontua que há dois principais problemas na cultura da Capital quando se trata de estrutura cicloviária e ciclista: respeito ao 1,5 m de distância de veículos motorizados e barreiras físicas.

“Nós temos uma sensação de insegurança maior sem essas duas coisas, e isso facilita as infrações de veículos motorizados dentro da estrutura cicloviária, principalmente motociclista. O ideal era que nós tivéssemos estruturas segregadas para garantir a nossa segurança.” Outro fator que eleva a sensação de insegurança para a ativista é o lixo descartado na malha cicloviária.

“Na rua João Brígido, via que pego para ir ao trabalho, tem trechos onde a ciclofaixa fica completamente bloqueada de lixo. O ciclista acaba tendo que ir para a via comum com os carros. Muitas vezes, o motorista não tem a gentileza de compreender que a ciclofaixa está intransitável.” Para a ciclista, o dever da Prefeitura não é só utilizar o dinheiro da Zona Azul para implantar ciclofaixas, mas também direcionar um trabalho de educação, principalmente para motoristas.

“São os motoristas que, de fato, colocam a vida do ciclista e do pedestre em risco, independentemente se há estrutura cicloviária. É partir para a educação dessas pessoas. O veículo motorizado é uma arma, uma das maiores causas de mortes no Mundo inteiro. Muitos motoristas priorizam tanto a pressa que não se importam de correr o risco de tirar a vida de alguém.”

Com o tema “Juntos Salvamos Vidas”, a campanha Maio Amarelo, na Capital, pretende promover ações até o final deste mês para prevenir acidentes e conscientizar a população acerca do alto índice de mortes e lesões no trânsito. Em Fortaleza, uma das ações voltadas para a ação foi o lançamento do Plano Municipal de Segurança no Trânsito, que pretende continuar as atividades que conseguiram resultados positivos na segurança viária, reduzindo pela metade a quantidade de mortes no período de dez anos.

Segundo a gestão municipal, educadores da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) seguem realizando mobilizações com faixas nos cruzamentos, distribuição de panfletos e fitas amarelas para serem afixadas nos retrovisores. A Prefeitura promoveu ainda cursos de pilotagem segura voltados para motociclistas e ciclistas e ações do Comando Maio Amarelo.

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