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24 de julho de 2024

“A aliança entre o PDT e o PSDB de Fortaleza vai permanecer para o próximo ano”

Recém filiado ao PSDB, Élcio destaca os principais desafios que o partido de Tasso Jereissati terá que enfrentar para criar uma nova composição partidária e revela descontentamento de como a política cearense tem entrado em crise depois do racha entre PT e PDT
Foto: Divulgação

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Cientista social por formação e mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Élcio Batista é atualmente vice-prefeito de Fortaleza e superintendente do Instituto de Planejamento (Iplanfor). Anos antes, foi chefe de Gabinete do ex-governador Camilo Santana (PT) e secretário-chefe da Casa Civil do Governo do Ceará nos anos de 2015 a 2020.

Atuou também como assessor de planejamento no Instituto Dragão do Mar. Recém filiado ao PSDB, Élcio destaca os principais desafios que o partido de Tasso Jereissati terá que enfrentar para criar uma nova composição partidária e revela descontentamento de como a política cearense tem entrado em crise depois do racha entre PT e PDT, esta última sigla que Élcio reafirma aliança para as eleições municipais de 2024. Confira, na íntegra, a entrevista exclusiva que o sociólogo concedeu ao OPINIÃO CE.

OPINIÃO CE – Comente sobre o evento que faz referência aos 35 anos do PSDB. É sabido que aqui em Fortaleza tem se trabalhado a ideia de renovação do partido, mas também de dar uma cara nova para o PSDB.

Élcio Batista – Esse momento é de renovação do PSDB, tanto nacionalmente, quanto nos estados e municípios. O PSDB tem uma longa história na Nova República, sendo impossível contar a história da redemocratização brasileira sem confundi-la com a própria história do PSDB. São 35 anos de contribuição para o desenvolvimento socioeconômico, político e, no caso do Estado de São Paulo, o PSDB praticamente governou o estado durante todo esse processo, sendo o estado mais importante da Federação e possuindo o maior PIB entre todos os estados. Agora, no ciclo de 35 anos, é o momento de olhar para trás e ver o legado deixado no país. É também um momento de olhar para o futuro e entender como o partido vai se reconstruir, como ele vai se reorganizar e como vai se posicionar diante das novas agendas do Século XXI. Além disso, é preciso construir um projeto que, ao mesmo tempo, seja de renovação do partido e um projeto nacional. Esse é o grande desafio colocado para essa nova geração de líderes que tem, em Eduardo Leite, a principal referência atual do partido no Brasil.

OPINIÃO CE – O PSDB já teve um protagonismo muito forte no Ceará com o Tasso Jereissati e, atualmente, mais isso. Como vocês olham o futuro do partido no Ceará?

Élcio Batista – O Tasso foi a grande liderança do partido a nível estadual e continua sendo uma liderança muito importante no Estado do Ceará. Talvez seja hoje a maior liderança do PSDB em âmbito nacional. Eduardo Leite tem escutado muito o Senador Tasso e tem trazido o senador para o debate. Aqui no Ceará, ele continua muito ativo e continuará participando ativamente nesse processo de renovação.

Praticamente todos os governadores do Estado do Ceará vieram de uma raiz tucana, exceto Camilo, cujo pai teve uma presença muito forte junto ao partido. O PSDB, na década de 80, tornou-se o principal partido do Estado do Ceará, principalmente por conta das políticas inovadoras criadas por Tasso Jereissati, que posteriormente se nacionalizaram e foram adotadas por outros estados governados pelo PSDB, bem como pelo Governo Federal. Muitas das políticas públicas implantadas em São Paulo, por exemplo, tiveram origem no Ceará, sendo testadas aqui antes de serem adotadas em outras regiões. Apesar do histórico de sucesso e desenvolvimento do PSDB no Ceará, houve um enfraquecimento do partido ao longo dos anos, principalmente após a eleição de Cid Gomes em 2006. Muitos deputados migraram para outros partidos, esvaziando o PSDB no estado e deixando Tasso Jereissati como a principal e praticamente única liderança.

Foto: Divulgação

Para revitalizar o PSDB e retomar o protagonismo, é necessário formar novas lideranças e fortalecer a identidade partidária. Com a reforma política em 2017, 2018 e 2019, que enfatizaram que o mandato pertence ao partido e não aos deputados estaduais, federais ou vereadores, além do financiamento público e do tempo de televisão direcionados aos partidos, podem contribuir para reforçar as siglas e sua importância na política.

PSDB e PT são os partidos que melhor conseguiram construir uma identidade e um programa ideológico nos últimos 40 anos no Brasil. O MDB, antigo PMDB, pode também ter conseguido. Outros partidos têm sido vistos como meras siglas, sem uma ideologia definida, o que tem levado a constantes trocas de legenda sem um compromisso ideológico claro durante os processos eleitorais. 

OPINIÃO CE – Em 2018, o PT ganhou do PSDB com grande expressão para o Governo do Estado. A partir daí, já foi pensada nessa reforma do PSDB para ter novos nomes no estado do Ceará?

Élcio Batista – Eu acho que, desde 2006, o partido foi perdendo o protagonismo no Estado do Ceará e praticamente se resumindo à figura do senador Tasso Jereissati. Em 2018, já foi uma situação de aprofundamento dessa tendência que vinha acontecendo. Em 2022, isso se exacerbou ainda mais por conta de toda a querela dentro do partido, enquanto o, na época, suplente de senador Chiquinho Feitosa, contra a orientação do senador Tasso, que defendia os quadros históricos do partido, resolveu declarar independência naquele processo eleitoral, em que se tinham três candidaturas: do Capitão Wagner, do Elmano e do Roberto Cláudio. Ali, foi a finalização de que o partido precisava, de fato, encontrar um novo caminho para ele.

Nacionalmente, foram às prévias para escolher o candidato do PSDB à Presidência, que acabou com a vitória de Dória. Depois, o PSDB não conseguiu nem ter um candidato à presidência, porque nem Dória foi e também o Eduardo Leite não conseguiu se viabilizar como candidato. Naquele momento, o PSDB também perdeu o estado de São Paulo, sinal de que o partido precisava se reinventar. Felizmente, o partido conseguiu ainda manter três governadores: a governadora Raquel Lyra, o governador Eduardo Leite e o governador Riedel, do Mato Grosso do Sul, que podem contribuir para esse processo de renovação, de reestruturação e de regeneração do PSDB.

Então, eu acho que foi uma tendência que só foi se aprofundando e 2022 foi, de fato, um momento de maior crise que o partido enfrentou ao longo desses 35 anos.

OPINIÃO CE – O partido está programando algumas filiações no Ceará e já tem um número de prefeituras no estado que o partido pretende atingir? 

Élcio Batista – Nós estamos num processo que é de atrair lideranças para o partido, principalmente lideranças jovens e comprometidas com a construção de um novo projeto do Estado do Ceará, de desenvolvimento econômico-social e político. Em paralelo, a gente vai trabalhar muito também formação política principalmente para jovens no Estado do Ceará. Isso vai ocorrer também ao nível nacional. Além disso, estamos construindo uma estratégia eleitoral para o próximo ano. 

Vamos tentar lançar candidatos com o maior número de prefeituras possível no Ceará e, ao mesmo tempo, vamos buscar em determinados prefeituras e contextos locais fazer aliança, desde que essas alianças estejam relacionadas com o programa do partido e com a visão que o partido tem em relação ao futuro daquele município e também do Estado do Ceará.

OPINIÃO CE – Em relação à “polarização afetiva” dentro da política, como está o posicionamento do PSDB? O que torna o partido atrativo?

Élcio Batista – O projeto político do PSDB está em processo de construção, ele não existe ainda. Em primeiro lugar, vamos olhar para a história do PSDB e olhar para dentro do PSDB para ver o que restou dessa história. A partir de agora, precisamos nos reorganizar para construir esse projeto. Não há um projeto claro do que devemos fazer, mas bandeiras devem ser assumidas neste novo ciclo. Um projeto não pode ser construído da mente de uma ou duas pessoas, precisamos ir à sociedade escutar. Na democracia, não é mais possível o desenvolvimento de projetos puramente tecnocráticos. Hoje, nós temos uma situação muito mais complexa do que no passado.

É preciso entender que o sistema político brasileiro, na última década, implodiu. Houve uma crise de confiança no sistema político. E ela perpassa todas as instituições da vida cotidiana das pessoas. A política foi criminalizada e foi reduzida. Você ser contra ou a favor da pessoa, ou você é petista, ou você é bolsonarista. A política não pode se reduzir a esses ismos e nem a essa redução afetiva de ser contra ou a favor de pessoas. Nós precisamos recentralizar a política e restaurar a confiança das pessoas. O Brasil, se não conseguir restaurar a confiança das pessoas, não vai fazer com que nenhum desses projetos, seja do PT, seja do PL do Bolsonaro, levar a sociedade brasileira a se desenvolver e enfrentar os desafios que ela tem do Século XX e do Século XXI. Então, esse é o momento de superação desse paradigma da última década que é de terra arrasada, de niilismo absoluto, de descrença das pessoas no sistema político. O que a gente precisa agora é justamente recriar uma nova esperança, em primeiro lugar, na política. Com isso, restaurar a confiança no sistema partidário no sistema político brasileiro. É uma tarefa difícil que só pode ser elevada à frente por novos líderes. 

OPINIÃO CE – Como você avalia o PDT do Cid Gomes e o PDT do Roberto Cláudio vão fazer parte dessa ação programática do PSDB?

Élcio Batista – Há uma aliança do PDT e PSDB desde o processo eleitoral do Sarto nas eleições de 2020. A aliança entre o PDT de Fortaleza e o PSDB de Fortaleza vai permanecer para o próximo ano. Nós precisamos discutir a eleição de 2024 em 2024, mas o que nós queremos é marchar juntos num processo é eleitoral para dar continuidade a um projeto que vem transformando a cidade de Fortaleza numa das principais cidades brasileiras e numa das principais cidades da América do Sul. Já lideramos a economia do nordeste, já lideramos o projeto de inovação e mobilidade urbana. Temos bons exemplos para apresentar na eleição 2024 como continuidade de um projeto, e por isso, acreditamos que esse é o caminho que o PSDB tem que seguir. Em relação ao PDT, nós temos apoio em Fortaleza. Ao nível estadual, é possível que tenhamos parcerias em alguns municípios do estado do Ceará, mas a crise que o PDT enfrenta hoje não sabemos como será seu desdobramento. Nós fazemos parte de um projeto que é de oposição ao Governo do Estado.

OPINIÃO CE – Você consegue ver a possibilidade um cenário em que o PSDB faria parceria com o PT?

Élcio Batista – Não há nenhuma possibilidade de PSDB e PT estarem juntos numa eleição. Essa não é orientação do partido nem em nível estadual, nem em nível nacional. O PDT vive uma crise que, se nós olharmos para 2006 e para o que aconteceu em 2006, o próprio Estado do Ceará só está em crise porque o sistema político mudou e o mandato não é mais dos deputados. Se o mandato continuasse sendo dos deputados, se eles pudessem sair do partido, como ocorreu em 2006, hoje não teríamos mais de 10 deputados no PDT. 

A crise do PDT vem porque a maioria hoje das pessoas que está dentro do partido foram formadas num outro momento político do sistema político brasileiro em que agora você não permite mais que elas possam sair. Você tem dúvida que se o Evandro Leitão pudesse sair, ele já teria saído do PDT? Ele teria saído ano passado antes de assumir o mandato dele. Você não tem que Osmar Baquit já não teria saído do PDT? Eles estão no poder, assim como outros, porque o sistema político mudou e eles não podem sair. 

Hoje, há uma tendência minoritária do partido quer hoje no Estado do Ceará fazer oposição, há outra tendência que quer aderir completamente ao PT, só que como um mandato agora é do partido, essas pessoas não podem mais sair do partido até a janela de 2026. Então, essa crise ocorre justamente no momento em que um modelo político, que vigorou até quatro anos atrás existia, só que agora que não existe mais. Por isso que o momento é de fortalecimento dos partidos, fortalecimento da identidade partidária e fortalecimento de liderança dentro do partido que construa uma trajetória. 

OPINIÃO CE – Nas eleições de 2024, você arriscaria uma aliança com Capitão Wagner ou o próprio Sarto, já possível candidato à reeleição?

Élcio Batista – A eleição de 2024 vai ser discutida em 2024 com os partidos, especificamente, da base do Sarto. Temos interesse em continuarmos essa aliança com o prefeito, uma vez que essa relação tem sido importante para o desenvolvimento social, econômico e territorial da cidade de Fortaleza. É muito importante que esse projeto seja apresentado no próximo ano com uma continuidade e inovação que tem acontecido ao logo dos últimos dois anos e meio. A relação do PDT com o PSDB em nível municipal é a melhor possível, e a minha relação com o Sarto é extremamente amigável.

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