Menu

Amor nos tempos de perimenopausa

Pela terceira noite consecutiva, acordo de supetão. Lençol e pijama encharcados de suor. Nas temperaturas negativas do inverno norte-americano, durmo com ventilador ligado. Felizmente, dessa vez volto a dormir rapidamente, mas são frequentes as madrugadas em que o pensamento percorre caminhos diversos numa jornada indesejada às 4 da manhã. Sempre às 4. 

Não tenho mais o pique que me permitia baladas noturnas na juventude. Também não tenho mais filhos bem pequenos que acordam no meio da noite. Minhas aventuras madrugada adentro agora são solitárias.

Os dias vêm recheados de falta de paciência, oscilação de humor, esquecimento e rompantes de raiva. Não foram poucas as vezes que, nos últimos meses, senti o incômodo de não mais me reconhecer. Lembro de desabafar com uma amiga, enquanto lavava a louça, que talvez, beirando os 40, eu precisasse fazer as pazes com o fato de ser uma “mulher de meia-idade raivosa”.

Foi também na cozinha, esse emblema da domesticidade feminina, que, em outra ocasião, meu marido deu voz à estranheza que parecia habitar em mim quando perguntou, frustrado, no meio de mais uma discussão: “O que está acontecendo com você?” No mesmo tom, respondi: “Chama-se perimenopausa! E é melhor você ir se acostumando, porque a tendência é piorar.”

A verdade é que não sei se estou realmente mudando ou se estou apenas voltando a ser mais eu mesma — antes de as responsabilidades dos 30 levarem a espontaneidade das minhas reações em nome da maturidade. Antes das necessidades dos outros dar contorno aos meus desejos. Antes de as demandas com os filhos me fazerem relevar incômodos, silenciar, focar no que importa.

Vem-me sempre à mente uma memória da adolescência. Meus pais discutiam sobre alguma banalidade, e meu pai queria encerrar o assunto quando minha mãe decidiu cantarolar sobre as próprias calcinhas. Ela organizava as gavetas e tirava dali inspiração para sua estreia musical improvisada. A intenção era clara: não conceder ao meu pai o privilégio do silêncio que ele demandava. 

Na época, achei engraçado. Hoje, entendo o poder da recusa de minha mãe em ser silenciada.

Temos vivido dinâmicas parecidas por aqui e já disse ao meu marido: “O assunto não está encerrado só porque você decidiu que está. Eu ainda tenho coisas a dizer. E vou dizer.” Minhas calcinhas, minhas calcinhas. Assim vou organizando minhas gavetas mentais e retirando dali o que já não me serve.

Não é que certas atitudes e condutas dele não me incomodassem antes, é que já não consigo ignorá-las sem meus hormônios funcionando como amortecedores. E fico pensando na ironia de termos atravessado tantos desafios juntos — três gravidezes, três puerpérios, instabilidade financeira, luto, pandemia — termos nadado tanto para morrer afogados na praia dessa recalibração do meu sistema nervoso.

Desde que identificamos essas mudanças, meu marido tem buscado se informar mais sobre a fase da vida que estou atravessando. Isso tem sido fundamental para que ele entenda meus processos como meus, e não como afronta ou ataque pessoal. Eu simplesmente não sou mais social e quimicamente programada para agradar os outros. E não é instabilidade; é indisponibilidade para certos papéis. O que sobra do outro lado disso são relações pautadas na verdade, na autenticidade e no prazer mútuo.

Nas minhas leituras, descobri que “menopausa” foi um termo cunhado por um médico francês em 1821. Em francês, ménopause, a palavra tem origem grega: mn (mês) e paûsis (pausa). O prefixo peri- significa “ao redor”, e “perimenopausa” começou a ser usado pela medicina no século XX para descrever os anos de transição hormonal que antecedem a menopausa propriamente dita. Ambos os termos enquadram essa transição pela lente do que está terminando — o fim da menstruação. O foco linguístico está na interrupção do ciclo, e não na transformação biológica, psicológica ou social que ocorre nesse período. É interessante pensar de que forma a linguagem coloniza a nossa experiência. Foi a partir de uma visão masculina que permeia a medicina e os estudos científicos que termos foram criados para descrever corpos e experiências femininas. Seria coincidência que essas experiências sejam vistas a partir de uma estrutura de perda e deficiência, em vez de transformação e potência?

Eu tenho me perguntado se a ausência de discordâncias na primeira década do meu casamento foi, de fato, um sinal de compatibilidade ou se estávamos apenas tão focados em sobreviver, em cuidar dos filhos, avançar na carreira e atingir estabilidade financeira que éramos como navios que se cruzam na noite. Avistávamos um ao outro numa névoa de demandas e cansaço. Agora, com filhos um pouco mais crescidos e sob os efeitos desse coquetel bioquímico em mutação, travamos batalhas navais na tentativa de finalmente nos vermos com mais nitidez.

Há uma frase atribuída a Gabriel García Márquez: “O problema do casamento é que ele se acaba todas as noites depois de se fazer o amor, e é preciso reconstruí-lo todas as manhãs antes do café.”

Reconstruir diariamente é mais difícil quando uma das partes deixa de suavizar as próprias arestas. Ainda assim, casamento é decisão e construção diárias. Não se pode querer uma mulher apenas enquanto ela é conveniente, nem amá-la apenas enquanto ela é previsível. Se o relacionamento só serve quando lhe beneficia, isso não é casamento. Eu quero ser vista, ouvida e compreendida na versão que estou me tornando.