Menu

A natureza é a casa das crianças

Quando eu era criança, ia a uma praia mansa e cheia de pedras. Meus pais se sentavam sob um guarda-sol e permitiam que eu e meu irmão caminhássemos sobre as pedras por horas. Eu encontrei animais, algas, um pouco de lixo, e tempo para pensar e sentir entre as pedras.

A mesma coisa aconteceu andando em parques, no quintal de casa, nadando no mar alto e caminhando na areia. O tempo da natureza foi generoso comigo. A terra
cheia de bichos me ensinou que tem vida em todo canto, minúscula, imensa, entrelaçada e solitária. A escuridão da água profunda me encheu de medo, o rugido do vento me encheu de medo, a areia seca ventando nos meus olhos me encheu de medo.

Mas o sal que secou no meu corpo, as sementes que eu roubei da floresta, plantei, e vi nascer, os muitos animais marinhos e os insetos que capturei por meia hora antes de ser obrigado por meu pai a devolvê-los… me ensinaram que a vida tem formas variadas, e que tudo dá um jeito de viver.


O líquen, o musgo, o micélio e os vermes me mostraram que nada é muito pouco, e que é possível criar e transformar mesmo aquilo que outras formas de vida desprezaram. Os cogumelos me mostraram que a única certeza da morte é a vida. Quando negamos a natureza às crianças é tudo isso que estamos negando. Não são duas horas de passeio, ou a liberdade para correr. É isso, também, mas é mais.


Quando isolamos uma criança das florestas e das praias, separamos uma forma de vida de toda a rede da vida. Nisso, todos perdem. A criança esquece que é parte de
uma teia infinita que a todos sustenta, cria e transforma. A natureza perde uma filha, e é mais pobre e vulnerável porque menos um humano vai amá-la, resgatá-la e
protegê-la, agora e no futuro.


Não só as florestas são natureza, nem só as praias. Uma praça, e até o canteiro central de uma rotatória é natureza. Nas árvores das calçadas moram lagartas, insetos,
passarinhos, várias espécies de musgo, líquen e fungos invisíveis.


No livro A Assinatura de Todas as Coisas, Elizabeth Gilbert nos conta de uma bióloga que desenvolve toda a teoria da evolução a partir da observação de um conjunto diverso de musgos disputando a área de uma pedra úmida. E William Blake nos lembra que é possível ver o mundo num grão de areia e o céu numa flor silvestre.

Para que as crianças abram uma brecha no véu do mistério das coisas, enxerguem e escutem a natureza, basta que nós, adultos, paremos de colocar obstáculos.
Não podemos destruir parques, precisamos preservar nascentes e aquíferos, manguezais e biomas, como o cerrado ameaçado e a caatinga que opera milagres quando
é deixada em paz.

Em seguida, precisamos levar as crianças até lá, sentar e esperar. Felizmente, a natureza sempre soube receber as crianças de volta, e as crianças sempre sentiram saudades. Então, se permitirmos o encontro — especialmente se houver um pequeno grupo de crianças junto, e nenhuma tela — podemos ter certeza do sucesso.