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Lúcio Alcântara relembra rompimento político com Ciro e Tasso: “Não tenho ódio, mas tenho memória”

Bastidores da política cearense, trajetória na vida pública e reflexões sobre comunicação marcaram a participação do ex-governador Lúcio Alcântara no programa Roberto Moreira Entrevista, do Opinião CE.

Um dos pontos centrais da conversa foi a tentativa frustrada de reeleição em 2006, quando perdeu o apoio dos então aliados Ciro Gomes e Tasso Jereissati às vésperas da disputa. Ao comentar o episódio, Lúcio citou o escritor Pedro Nava, na obra Baú de Ossos: “Eu não tenho ódio, mas tenho memória”.

Trajetória e eleição apertada

Médico de formação, Lúcio construiu uma trajetória extensa na política: foi secretário da Saúde do Ceará, prefeito de Fortaleza, deputado federal por dois mandatos, vice-governador e senador da República. Em 2002, foi eleito governador em segundo turno, superando José Airton Cirilo por 3.047 votos.

Em 2006, segundo ele, o cenário indicava ambiente favorável à reeleição. Pesquisa do Datafolha, em agosto daquele ano, apontava 50% de aprovação da gestão, 32% de avaliação regular e 13% de desaprovação.

Ruptura às vésperas da campanha

À época, surgiram especulações de que Cid Gomes, irmão de Ciro, poderia disputar o Governo do Estado. Lúcio afirma que procurou Ciro diretamente e que ouviu reiteradas negativas sobre a possibilidade de rompimento.

“Tenho consciência de que fui uma pessoa absolutamente leal. Posso ter sido até ingênuo. Por outra, confiante. Eu acreditava no que me diziam”, declarou.

Segundo o ex-governador, Tasso Jereissati não negava apoio formalmente, mas, faltando 48 horas para o prazo de desincompatibilização – necessário para disputar a eleição – teria sugerido que ele desistisse da reeleição e concorresse novamente ao Senado. Lúcio recusou. “Vou terminar o meu governo, as minhas obras. Não me preparei para sair e não vou sair como quem está saindo pela porta dos fundos”, relatou.

Eleição e rompimento com o PSDB

Mesmo sem o apoio dos antigos aliados, Lúcio manteve a candidatura, segundo ele, por insistência de lideranças políticas e parlamentares. Raimundo Viana, então presidente estadual do partido, teria permanecido ao seu lado.

Na eleição, Cid Gomes venceu ainda no primeiro turno, com 62,38% dos votos. Lúcio ficou em segundo lugar, com 33,87%.

No ano seguinte, rompeu sua relação histórica com o PSDB e se filiou ao PR. “Depois da morte do meu pai e da minha mãe, o maior sofrimento que tive foi isso. Eu os tinha como amigos”, afirmou.

Segundo ele, a mágoa não decorre da mudança de posicionamento político, mas da forma como o rompimento ocorreu. “O que não perdoo foi a forma como fizeram. Como me emparedar”, declarou. Apesar do episódio, Lúcio afirmou que mantém relação institucional com os ex-aliados. “Me relaciono, mas não intimamente”. E concluiu: “Sou leal, mas não sou submisso. Sou cordial, mas tenho personalidade”.

Literatura como base da consciência humanista

Ao relembrar sua trajetória, Lúcio Alcântara destacou o papel decisivo da literatura na formação de sua visão de mundo e na maneira como exerceu a vida pública. “Para governar, foram livros que me ajudaram a formar essa consciência humanista. A ter essa ideia de respeitar os outros e na vida pública ter um foco. Nada, vamos dizer assim, midiático, mas efetivo para ajudar a quem mais necessita, quem mais precisa. Foram muitos livros que me ajudaram a formar essa consciência”, afirmou.

O ex-governador citou como referência o escritor A. J. Cronin, autor de obras que retratam a realidade social da Inglaterra até parte do século XX. Segundo Lúcio, os romances e memórias do autor descrevem o cotidiano de médicos que atuavam em regiões de minas de carvão, marcadas por miséria, exploração, doenças e ausência de assistência. Ele destacou o contraste apresentado nas narrativas de Cronin entre esses profissionais e médicos que atendiam clientelas abastadas, distantes das dificuldades enfrentadas pelas camadas mais vulneráveis da população.