O Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Ceará (IEGEE-CE) revela que o Estado registrou crescimento de 20,4% nas emissões brutas e de 24,1% nas emissões líquidas no período de 2018 a 2023. Os dados integram o capítulo que consolida os resultados da série histórica, elaborada com base no Protocolo Global para Inventários de Emissões de GEE em Escala Comunitária (GPC). Os números foram apresentados nesta quarta-feira (11), na Assembleia Legislativa do Ceará.
De acordo com o documento, emissões brutas correspondem ao total de gases de efeito estufa (GEE) liberados pelas atividades humanas. Já as emissões líquidas representam o saldo entre emissões e remoções de carbono realizadas por sumidouros naturais, como florestas, conforme a equação: emissões líquidas = emissões brutas – remoções de carbono.
Em termos absolutos, as emissões brutas passaram de 34,32 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e), em 2018, para 41,32 MtCO₂e, em 2023. A trajetória foi marcada por retração de 7% em 2020 – reflexo da redução no consumo de combustíveis e da queda no desmatamento durante o primeiro ano da pandemia de covid-19 – e expansão de cerca de 18% em 2021.
As emissões líquidas seguiram tendência semelhante: partiram de 28,17 MtCO₂e em 2018 e atingiram 34,97 MtCO₂e em 2023. O menor patamar foi registrado em 2020, enquanto 2021 apresentou o pico da série, refletindo a retomada das atividades econômicas. No acumulado de 2018 a 2023, as emissões líquidas somaram 190,7 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, com média anual de 31,8 milhões de toneladas e crescimento acumulado de 24%.
Predominância de emissões diretas
A análise por escopos do GPC demonstra forte predominância das emissões diretas, oriundas de atividades realizadas dentro do território estadual, como queima de combustíveis fósseis, processos industriais e atividades agropecuárias.
Essa categoria respondeu por 96% das emissões totais e registrou crescimento de 27% no período, passando de 26,8 milhões de toneladas, em 2018, para 34 milhões, em 2023. O aumento está associado, principalmente, à expansão das emissões nos setores de Energia Estacionária, Processos Industriais e Uso de Produtos (IPPU) e Agricultura, Florestas e Outros Usos da Terra (AFOLU).
Uma segunda categoria, que contempla emissões indiretas relacionadas ao consumo de energia elétrica adquirida, teve participação reduzida – cerca de 3% do total – e comportamento irregular. Após picos em 2020 (1,1 milhão de tCO₂e) e 2021 (1,5 milhão de tCO₂e), encerrou 2023 com 392 mil tCO₂e.
Já o Escopo 3, que inclui emissões indiretas como transporte aéreo e perdas no sistema de transmissão e distribuição de energia, representou aproximadamente 2% do total e apresentou tendência de queda de 8% no intervalo analisado.
Papel central
O setor AFOLU (Agricultura, Floresta e Outros Usos da Terra) desempenha papel estratégico no balanço de emissões do Ceará, por reunir tanto fontes emissoras quanto processos de remoção de carbono da atmosfera. O inventário aponta crescimento expressivo das emissões do AFOLU, que passaram de 5,5 MtCO₂e em 2018 para 14,62 MtCO₂e em 2023 – alta de 166% no período.
Durante a elaboração do IEGEE-CE, não foi possível obter dados georreferenciados detalhados sobre uso do solo a partir das bases fornecidas pela Secretaria do Meio Ambiente (Sema). Diante da limitação, o inventário adotou como referência as estimativas da plataforma SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa), que apresenta detalhamento das emissões e remoções associadas à mudança de uso da terra no território cearense.
Dentro do AFOLU, o subsetor de rebanhos foi o principal responsável pelas emissões ao longo da série histórica. Considerando o período completo, acumulou 37,92 MtCO₂e – o equivalente a 65% do total do setor. As emissões cresceram 16% entre 2018 e 2023, impulsionadas sobretudo pela fermentação entérica e pelo manejo de dejetos animais, refletindo a expansão gradual da atividade pecuária.
Já o subsetor de mudança e uso da terra apresentou a variação mais acentuada. Em 2018, registrava remoção líquida de –497.414 tCO₂e. Em 2023, passou a emitir 7,73 MtCO₂e, acumulando 19,89 MtCO₂e no período – aumento de 1.654%. O avanço está diretamente associado à conversão de formações florestais savânicas em áreas de uso agropecuário, evidenciando a pressão sobre os ecossistemas e a redução da capacidade de remoção de carbono pela vegetação nativa.
Principais fontes emissoras
A análise setorial identificou oito atividades responsáveis pela maior parte das emissões no Ceará. Entre as fontes que se mantiveram como principais contribuintes ao longo da série histórica estão a produção de aço, a criação de bovinos e o manejo de resíduos sólidos. A partir de 2021, as emissões associadas às mudanças no uso da terra, sobretudo o desmatamento, ganharam maior relevância, tornando-se a principal fonte emissora em 2023.
Por outro lado, o consumo de carvão mineral, que tinha peso significativo até 2021, apresentou redução de 97% nas emissões nos anos seguintes. A queda está relacionada à descontinuidade do uso da fonte nas termelétricas estaduais, impulsionada pela expansão das energias renováveis. Também figuram entre os grandes emissores a produção de cimento e o consumo de óleo diesel e gasolina no transporte rodoviário, atividades diretamente associadas ao crescimento urbano e à dinâmica industrial do Estado.
O inventário tem como objetivo subsidiar a formulação de políticas públicas e orientar a priorização de ações estratégicas para mitigação das emissões, servindo como diagnóstico técnico para o planejamento climático do Ceará nos próximos anos.
Inventário climático
O IEGEE-CE abrange o período de 2018 a 2023 e sistematiza dados sobre emissões e remoções de gases de efeito estufa no território cearense. Durante a solenidade de apresentação, a secretária do Meio Ambiente e Mudança Climática, Vilma Freire, destacou o significado do documento.
“Este inventário é um marco para o Ceará. Em um cenário desafiador, especialmente no semiárido nordestino, ele atende à Política Estadual sobre Mudanças Climáticas e aos compromissos do Governo do Estado com as agendas climáticas nacionais e internacionais”, afirmou.
A secretária agradeceu ao ICLEI pela consultoria técnica e mencionou o apoio do governador Elmano de Freitas. “Agradeço ao governador, que sempre confiou em nosso trabalho e nos apoiou na formulação de políticas públicas inovadoras.” Rodrigo Perpétuo, secretário executivo adjunto e diretor do ICLEI Brasil, ressaltou que a entrega ocorre em momento estratégico, com o Brasil assumindo a presidência da COP30. “A governança foi fundamental. A transparência é crucial, pois este documento deve ser apropriado por todos: academia, indústria, governo e sociedade civil”, declarou.
Segundo ele, o inventário funciona como diagnóstico inicial para a conformidade climática do Estado, subsidiando a identificação de riscos e vulnerabilidades e a elaboração de um Plano de Ação Climática.
