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Doenças tropicais persistem em vilas do Projeto de Integração do Rio São Francisco

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou casos de esquistossomose e a presença de barbeiros, insetos vetores da doença de Chagas, em comunidades reassentadas pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco no Ceará.

As vilas produtivas rurais localizadas nos municípios de Jati, Brejo Santo e Mauriti, no sul do estado ainda enfrentam ameaças de antigas doenças tropicais associadas à pobreza.

Os resultados foram publicados no periódico Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do SUS, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde.

As análises foram realizadas em 2019 e 2020, envolvendo moradores de áreas que receberam mais de 200 famílias reassentadas pelas obras de transposição.

Segundo o farmacêutico José Damião da Silva Filho, e doutor em Saúde Pública pela UFC, os achados revelam que “a infraestrutura, por si só, não elimina o risco”.

Ele ressalta que fatores como vulnerabilidade social e acesso limitado aos serviços de saúde continuam sendo determinantes importantes para a manutenção dessas doenças nas comunidades.

Esquistossomose e doença de Chagas

Nos testes realizados para esquistossomose, 11,5% dos 234 participantes apresentaram resultados positivos no exame de urina. Já nas análises para doença de Chagas, das 368 amostras de sangue coletadas, a prevalência foi de 0,3%.

Barbeiros foram encontrados em quatro das 245 casas inspecionadas, embora nenhum deles estivesse infectado pelo Trypanosoma cruzi, agente causador da doença.

Foto: Guilherme Silva / Secom-UFC

“A simples presença desses insetos dentro e ao redor das residências mostra que o risco ainda existe e precisa ser monitorado”, alerta o professor Fernando Schemelzer de Moraes Bezerra, do Departamento de Análise Clínica e Toxicológica da Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem da UFC.

A equipe também realizou triagens para hanseníase em 300 moradores, sem identificação de casos confirmados. Ainda assim, os pesquisadores reforçam a necessidade de vigilância ativa e permanente, considerando que os municípios estudados integram áreas historicamente endêmicas para essas enfermidades.

Vigilância epidemiológica 

Entre as ações recomendadas estão o treinamento de agentes de saúde, a educação da população sobre prevenção e o fortalecimento da integração entre vigilância epidemiológica e atenção primária.

Para José Damião da Silva Filho, o enfrentamento às doenças tropicais negligenciadas exige uma visão ampla e integrada. “A saúde pública precisa olhar para além das paredes das casas”, afirma.

Foto: Reprodução

O grupo pretende revisitar as vilas para investigar os impactos da chegada efetiva das águas do São Francisco sobre o comportamento dos vetores e a incidência das doenças.

A pesquisa contou com apoio do Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde (PPSUS) e parceria da Secretaria da Saúde do Ceará e das prefeituras locais.