A derrota do Iguatu na tarde de ontem (7) para o Ferroviário, por 2 a 0, e, consequentemente, a eliminação do Azulão do Campeonato Cearense 2026, gerou um fato, no mínimo, curioso. Pela segunda temporada consecutiva, Ceará ou Fortaleza não disputarão uma partida longe da Região Metropolitana pelo estadual.
O último confronto de um dos grandes no interior do estado aconteceu em 28 de janeiro de 2024, quando o Fortaleza venceu o Barbalha na Arena Romeirão, em Juazeiro do Norte, por 5 a 0.
O Ceará, por sua vez, foi bem antes disso. Em 2023, o Alvinegro visitou o Iguatu, no Morenão, pela semifinal do Campeonato Cearense. Naquela mesma edição, o Vozão jogou ainda, na Arena Romeirão, contra o Guarani de Juazeiro.

No ano passado, mesmo com a participação de três clubes de fora da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), Cariri, Barbalha e Iguatu, a tabela não proporcionou nenhuma grande viagem aos dois maiores clubes do estado.
Em 2026, além de Iguatu, o Quixadá disputou a Série A estadual, mas mandou seus jogos no Abilhão contra Maracanã e Ferroviário. O confronto contra o Fortaleza ocorreu no Presidente Vargas. O Canarinho do Sertão foi eliminado na primeira fase.
Já o Azulão recebeu Maranguape e Tirol no Morenão, mas o Iguatu chegou a enfrentar Ceará e Fortaleza na competição, fora de casa, também no PV. A tabela é elaborada pela Federação Cearense de Futebol (FCF).
Dessa forma, em 2027, completarão três anos que os dois maiores clubes do estado visitaram algum estádio fora dos limites da Grande Fortaleza.
Para se ter uma ideia, no atual certame, a maior distância percorrida por alvinegros e tricolores foi de aproximadamente 40 quilômetros, quando jogaram no estádio Domingão, em Horizonte, que fica a cerca de 38 minutos da capital cearense.
Prejuízo financeiro
O jornalista Toni Sousa, que cobre os clubes do interior do Estado, enxerga que essa ausência causa prejuízos esportivos e financeiros às equipes menores, sem a possibilidade de receita gerada a partir da bilheteria no confronto contra algum dos gigantes.
A partida entre Barbalha e Fortaleza de 2024, por exemplo, trouxe uma renda de R$ 138 mil para a Raposa Caririense, a oitava maior do estadual daquele ano. “Na época, isso ajudou a pagar a folha salarial do Barbalha”, lembra.
“Jogar no interior movimentava as torcidas. Todo mundo queria ver Ceará e Fortaleza jogando em Barbalha, Crato, Juazeiro, Sobral, Iguatu. Havia essa movimentação e era bacana. A renda ajudava os clubes a pagar uma folha. Às vezes, duas folhas de salário, porque geralmente são bem menores que da capital”, enxerga Toni.
Decadência de clubes
Uma das razões que pode explicar a ausência de Ceará e Fortaleza no interior do estado é que times tradicionais como Icasa, Guarani de Juazeiro e Guarany de Sobral estão distantes da elite do futebol cearense.
Equipes que disputavam com regularidade a primeira divisão, como Crato, Barbalha e Itapipoca, também figuram na segunda divisão.
Em outra ponta, houve o crescimento do Floresta, de Fortaleza, que está na Série C do Campeonato Brasileiro, e as ascensões do Tirol, também da capital, e do Maracanã, de Maracanaú, além do retorno do Maranguape, do município homônimo.
Outros clubes da RMF, como Atlético Cearense e Caucaia, que disputarão a Série B de 2026, estiveram na primeira divisão nos últimos anos. Mas Toni Sousa acredita que apenas a decadência dos clubes não explica essa situação.
“A gente vem sentindo que Ceará e Fortaleza não querem mais jogar no interior. Antes mesmo da decadência, os clubes já não tinham interesse. Tanto é que regulamentos eram aprovados, num passado não tão distante, onde Ceará e Fortaleza só entravam na reta final. A primeira fase inteira era sem eles”, recorda o jornalista.
Impacto para os grandes
Toni Sousa enxerga que essa distância entre os maiores times do estado e o interior também causa prejuízos aos dois, porque não oferece uma renovação de torcedores em diferentes regiões. “As pessoas sentem a falta dos times do interior fortalecidos, mas Ceará e Fortaleza não ocupam esse espaço, porque estão longe daqui”, completa.
“Como Ceará e Fortaleza não se interessam pelo interior, o interior está perdendo interesse pelos grandes da capital. A gente tinha ídolos aqui, que nasceram em Juazeiro, Quixadá, Quixeramobim, Barbalha, Sobral, e que estavam vestindo as camisas de Ceará e Fortaleza. Quem são esses ídolos hoje? Qual a identificação que o interior tem com Ceará e Fortaleza hoje? Portanto, vejo prejuízo para todo mundo”, finaliza.
