O número de acidentes envolvendo animais peçonhentos no Cariri cresceu de forma significativa em 2025 e acende um alerta para a população da região. Dados da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) apontam que foram registradas 3.667 ocorrências no ano passado, contra 2.825 em 2024 – um aumento de 29,8%. Somente no Hospital Regional do Cariri (HRC), referência para esse tipo de atendimento, as notificações saltaram de 96 para 149 no mesmo período.
O crescimento dos registros ajuda a explicar histórias como a do aposentado Pedro Marcelino, de 70 anos. Ele foi surpreendido por um escorpião dentro da própria casa, enquanto preparava o café da manhã. “Na hora que eu pisei no tapete da cozinha, o escorpião estava lá em cima e me ‘ferroou’. Depois ficou doendo e dormente, uma dor constante subindo pela perna”, relatou. Incentivado pela esposa, Pedro procurou o HRC, onde recebeu atendimento médico e permaneceu em observação até a melhora dos sintomas.
Os acidentes com animais peçonhentos, como escorpiões, cobras e aranhas, são considerados emergência médica, mesmo quando os sinais iniciais parecem leves.
“Dor intensa que se espalha rapidamente, inchaço progressivo, vômitos, tontura, suor excessivo, visão embaçada, dificuldade para respirar, sonolência ou confusão mental são sinais de alerta. Esses quadros indicam ação sistêmica do veneno e exigem atendimento imediato”, explica a médica emergencista do HRC, Morgana Tavares.
Crescimento no Ceará
Em todo o Estado, o cenário também é de aumento. Entre 2024 e 2025, o Ceará registrou 26.660 acidentes por animais peçonhentos – 12.061 em 2024 e 14.599 em 2025. Desse total, os acidentes com escorpiões representam 60,8% das notificações.
Segundo a coordenadora de Vigilância Epidemiológica e Prevenção em Saúde da Sesa, Ana Cabral, o avanço nos números não deve ser interpretado apenas como maior presença desses animais. “Esse crescimento também reflete o fortalecimento da rede de vigilância e o planejamento para a distribuição de imunobiológicos no Estado”, avalia.

Atendimento e uso do soro
Ao chegar ao HRC, o paciente passa por triagem, avaliação médica e classificação de gravidade. Quando indicado, é aplicado o soro antiveneno específico. A farmacêutica Marina Santos explica que a decisão considera sintomas, tipo de animal envolvido e exames laboratoriais. “Pacientes sem sintomas permanecem em observação por pelo menos 12 horas, pois podem ocorrer reações tardias. Já os que apresentam sinais de envenenamento ficam, no mínimo, 24 horas em acompanhamento”, detalha.
O HRC dispõe de cinco tipos de soros antiveneno: antibotrópico, anticrotálico, antielapídico, antiescorpiônico e antiaracnídeo, garantindo cobertura para os principais acidentes registrados na região.
O que não fazer
A orientação médica é clara sobre práticas que devem ser evitadas após um acidente. “Não se deve cortar o local, fazer torniquete, sugar o veneno ou aplicar substâncias caseiras. O correto é manter o membro em repouso, retirar objetos apertados e lavar apenas com água e sabão. Se possível, fotografar o animal ajuda na identificação”, reforça Morgana Tavares.
Com a alta nos registros, autoridades de saúde reforçam a importância da prevenção, do reconhecimento rápido dos sintomas e da busca imediata por atendimento especializado, especialmente em regiões como o Cariri, onde o crescimento dos casos tem sido mais acentuado.
