Menu

Nipah: conheça o vírus e entenda por que preocupa a Ásia

O novo surto do vírus Nipah, enfrentado por autoridades sanitárias indianas, levantou um alerta no planeta. Mas existe a chance dos casos se espalharem pelo Brasil e em outras partes do Mundo? Especialistas acreditam que a possibilidade é pequena de, por exemplo, repetir-se aquilo que ocorreu há seis anos com a pandemia da covid-19.

Para entender um pouco sobre isso, é importante fazer uma pequena recapitulação. O Nipah foi identificado, pela primeira vez, em 1999, durante um surto entre criadores de suínos na Malásia. Posteriormente, em 2001, houve registros do vírus em Bangladesh, país notifica surtos quase anuais.

Durante o primeiro surto reconhecido do Nipah, na Malásia, e que também afetou Singapura, a maioria das infecções humanas resultou do contato direto com porcos doentes. Acredita-se que a transmissão tenha ocorrido por meio da exposição desprotegida às secreções dos suínos ou pelo contato desprotegido com a carcaça de um animal doente.

Em surtos subsequentes, em Bangladesh e na Índia, o consumo de frutas e produtos derivados, como suco, contaminados com urina ou saliva de morcegos frugívoros infectados pelo vírus foi a fonte de infecção mais provável. A transmissão do vírus de pessoa para pessoa também foi relatada entre familiares e cuidadores de pacientes infectados, por meio do contato próximo com secreções e excreções humanas.

Em Siliguri, na Índia, em 2001, a transmissão do Nipah também foi relatada em uma unidade de saúde, onde 75% dos casos ocorreram entre funcionários ou visitantes do hospital.

Entre 2001 e 2008, cerca de metade dos casos relatados em Bangladesh foram causados por transmissão de pessoa para pessoa, através do atendimento a pacientes infectados.

A doença, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), também vem sendo periodicamente identificada no leste da Índia, onde fica Bengala Ocidental, epicentro do surto atual.

A OMS consolidou o entendimento que o Nipah é um vírus zoonótico, transmitido de animais para humanos, mas que também pode ser transmitido por meio de alimentos contaminados ou diretamente entre pessoas. Em pacientes infectados, o vírus causa uma variedade de sintomas, desde infecções assintomáticas até doenças respiratórias agudas e encefalite fatal.

“Embora o vírus Nipah tenha causado apenas alguns surtos conhecidos na Ásia, ele infecta uma ampla gama de animais e causa doenças graves e morte em humanos, tornando-se uma preocupação de saúde pública”, destaca OMS.

Situação atual

Como pode perceber, a transmissão não é algo novo no continente asiático. Contudo, novos casos do Nipah foram registrados, na província de Bengala Ocidental, na Índia, entre pelo menos cinco profissionais de saúde de um hospital. Cerca de 100 pessoas também foram colocadas em quarentena na mesma unidade.

Países vizinhos, incluindo Tailândia, Nepal e Taiwan, ampliaram as medidas sanitárias de precaução em aeroportos em razão do risco de disseminação.

E o Brasil?

O consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Benedito Fonseca, explica que a incidência do vírus na Índia por fatores ambientais e culturais e as formas de transmissão limitam o alcance, se comparado a micro-organismos que causaram pandemias, como a da covid-19.

Fonseca, que também é professor de infectologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), acredita que é pequeno o potencial do vírus se espalhar pelo planeta e causar uma nova pandemia.

“Outras regiões podem estar em risco de infecção, visto que evidências do vírus foram encontradas no reservatório natural conhecido (morcego do gênero Pteropus) e em diversas outras espécies de morcegos em vários países, incluindo Camboja, Gana, Indonésia, Madagascar, Filipinas e Tailândia”, lembra.

Sintomas

Segundo a OMS, pacientes infectados desenvolvem inicialmente sintomas como febre, dor de cabeça, mialgia, vômitos e dor de garganta. A doença pode desenvolver ainda tonturas, sonolência, alteração do nível de consciência e sinais neurológicos que indicam encefalite aguda.

Alguns pacientes também podem apresentar pneumonia atípica e problemas respiratórios graves, incluindo síndrome do desconforto respiratório agudo. Encefalite e convulsões ocorrem em casos graves, progredindo para coma entre 24 horas a 48 horas.

O período de incubação do Nipah (intervalo entre a infecção e o início dos sintomas) varia de 4 a 14 dias, mas já foram relatados períodos de incubação de até 45 dias.

Ainda de acordo com a OMS, a maioria das pessoas que sobrevivem à encefalite aguda causada pelo vírus se recupera completamente, mas sequelas neurológicas de longo prazo foram relatadas em cerca de 20% dos sobreviventes, incluindo distúrbios convulsivos e alterações de personalidade.

A taxa de letalidade do Nipah é estimada entre 40% e 75% e pode variar de acordo com o surto, dependendo da capacidade local de vigilância epidemiológica e de manejo clínico de pacientes.

Diagnóstico

Como os sintomas iniciais da infecção são inespecíficos, o diagnóstico, muitas vezes, demora, o que comumente gera desafios na detecção de surtos, na implementação de medidas eficazes e oportunas de controle da infecção e nas atividades de resposta a surtos do Nipah.

A infecção pode ser diagnosticada com base no histórico clínico durante as fases aguda e de convalescença da doença. Os principais testes utilizados são o RT-PCR em fluidos corporais e a detecção de anticorpos por meio do ensaio imunoenzimático. Outros testes utilizados incluem o ensaio de PCR e o isolamento viral por cultura celular.

Tratamento

Atualmente, não existem medicamentos ou vacinas específicos para a infecção pelo vírus, embora a OMS tenha identificado o Nipah como parte de sua lista de patógenos com potencial de desencadear uma epidemia. A recomendação da entidade é que os pacientes sejam submetidos a tratamento intensivo de suporte para complicações respiratórias e neurológicas graves. (Com informações da Agência Brasil)