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Pesquisador da UFC alerta que impactos na Antártida afetam clima e equilíbrio ambiental do planeta

Sérgio Rossi, do Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar/UFC), alertou que o que ocorre na Antártida tem efeitos diretos sobre o clima, a produtividade e o equilíbrio ambiental de todo o planeta. Em entrevista ao Opinião CE, o pesquisador, que integra uma missão científica internacional a bordo do navio Polarstern, do governo alemão, reforçou que a preservação dos ecossistemas antárticos é estratégica para conter o avanço das mudanças climáticas e proteger recursos essenciais à biosfera.

“Para proteger esses recursos e para diminuir a potencialidade das mudanças climáticas é importante proteger este tipo de organismo que vive na Antártida e que também tem um papel em tudo o que seria a biosfera”, afirmou Rossi.

O docente participa da expedição Wobec PS152, que partiu no dia 15 de dezembro de 2025, de Walvis Bay, na Namíbia, com destino ao continente gelado, e tem retorno previsto para 2 de fevereiro. A missão reúne pesquisadores de diversos países e tem como objetivo unificar protocolos científicos capazes de avaliar os efeitos de longo prazo das mudanças climáticas na Antártida.

Segundo Rossi, apesar da distância geográfica, os reflexos do que acontece no continente branco atingem diretamente o restante do mundo, tanto do ponto de vista ambiental quanto da produtividade dos oceanos. Um dos focos centrais da expedição é a coleta de dados que servirão de base para a criação de uma Área Marinha Protegida (AMP) no mar de Weddell.

“Esta campanha, que agora dura um mês e três semanas aproximadamente, será também a base para fornecer uma série de informações fundamentais para a criação dessa Área Marinha Protegida. Isso está em disputa, mas a coleta de dados é fundamental, assim como outros dados que foram coletados há décadas”, explicou.

Embora atualmente a Antártida não seja explorada comercialmente, seja por pesca, mineração ou turismo em larga escala, o professor alerta que esse cenário pode mudar nas próximas décadas. Para ele, o momento de intensificar a proteção do continente é agora, antes que interesses econômicos avancem sobre uma região considerada chave para o equilíbrio climático global.

Zona de Proteção Antártica e disputas internacionais

A Antártida integra a chamada Zona de Proteção Antártica, área regida pelo Sistema do Tratado da Antártica, firmado em 1959, que estabelece o uso exclusivo do continente para fins pacíficos e científicos. O tratado proíbe atividades militares e a exploração mineral, além de impor regras internacionais para pesquisas e para a conservação de um dos ecossistemas mais sensíveis do planeta, que concentra importantes reservas hídricas.

O Brasil é signatário do tratado e atua de forma ativa por meio do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), criado em 1982, participando de missões científicas e da produção de conhecimento sobre o continente.

Apesar disso, Rossi alerta que há resistências quanto à ampliação de uma proteção integral da Antártida, especialmente entre grandes potências. “Os países que não estão, digamos, muito alinhados com isso, basicamente, são a Rússia, China e Estados Unidos. São os que mais têm reticências de fazer uma coisa tão integral, tão protegida. Você tem que voltar a reunir o Comitê do Tratado Antártico para discutir o futuro da Antártida de uma outra vez. Não é que esses países estejam contra a proteção. O que não querem é a proteção total que nós estamos tentando pedir”, afirmou.

Embora atualmente não exista exploração comercial significativa na região, como pesca em larga escala, mineração ou industrialização, o professor avalia que esse cenário pode mudar nas próximas décadas, o que torna urgente o fortalecimento dos mecanismos de proteção internacional.

Pesquisa brasileira no continente gelado

Em sua quarta missão científica na Antártida – após passagens pelo continente em 2000, 2003 e 2011 –, Sérgio Rossi atua no estudo das comunidades bentônicas, organismos que vivem no fundo do mar e desempenham papel fundamental no ciclo do carbono. O trabalho é realizado em parceria com pesquisadores internacionais, sob coordenação da Alemanha.

“O meu papel aqui, o papel do Labomar UFC, é basicamente o de realizar a pesquisa das comunidades bentônicas, que são as comunidades que estão no fundo do mar e que aqui representam incríveis florestas de animais marinhos, compostas de esponjas, gorgônias e corais”, detalhou. “São comunidades muito frágeis, muito bem estruturadas e biodiversas, que estão em perigo, por exemplo, pela pesca de arrasto ou por algum tipo de intenção de industrialização da zona”, acrescentou.

As reflexões acumuladas ao longo de mais de duas décadas de pesquisas no continente gelado também resultaram na publicação do livro A journey in Antarctica: Exploring the future of the white continent, lançado pela editora Springer. Na obra, o professor compartilha experiências de campo e analisa os desafios futuros para a preservação da Antártida diante do avanço das mudanças climáticas e das pressões humanas.